Em algum momento da crise, provavelmente orientado pelosfilhos idiotas e por algum desses assessores olavistas que pululam no governo,Jair Bolsonaro pensou que poderia se aproveitar de uma pandemia para reforçar aimagem mítica que, com a ajuda da mídia e da ignorância popular, construiujunto a seu público de boçais.
Assim, na contramão da Organização Mundial da Saúde econtra todas as recomendações de todos os cientistas do planeta, lançou-se emuma cruzada pessoal contra a política de isolamento social apontada, hoje, comoúnica possibilidade de a raça humana superar a epidemia do novo coronavírus semter que, em breve, empilhar milhões de corpos em crematórios de campanha.
Como todo oligofrênico estimulado, Bolsonaro acredita naspróprias convicções como se ciência fossem, mas, no caso da pandemia,necessitava de uma narrativa que transbordasse alguma credibilidade para osfanáticos que o seguem, sobretudo, nas redes sociais. Daí, surgiu a admiraçãodo presidente pela cloroquina, droga usada no tratamento da malária e dedoenças reumáticas.
Bolsonaro, claro, não pensou nisso sozinho nem tirou essaideia da cartola do astrólogo Olavo de Carvalho, o guru descrente da pandemia.O poder de cura da cloroquina e seu componente político no enfrentamento àoposição ao isolamento veio de Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, aquem Bolsonaro e os filhos prestam uma vassalagem tão anedótica quantoconstrangedora.
Assim, enquanto pôde, Bolsonaro saiu às ruas para abraçarpessoas e mostrar ao mundo sua absoluta falta de limites e sua estupidezinfinita, pongado no discurso de que, além de ser uma gripezinha, o Covid-19logo seria sepultado pela ação da cloroquina. Era o que dizia o Grande Patrãodo Norte, logo, não poderia estar errado.
No pronunciamento de ontem, simbolicamente abafado pelospanelaços da classe média estúpida que o elegeu, Bolsonaro, enfim, foi obrigadoa capitular, a contragosto. Até sobre a cloroquina, panaceia que iria salvar omundo, teve que ser moderado. Afinal, nos EUA, Trump colocou 2 trilhões dedólares na economia (6% do PIB), passou a apoiar o isolamento social e aapostar na descoberta de uma vacina. Deixou Bolsonaro falando sozinho.
Em cadeia nacional, com uma aparência cada vez maissinistra, envolto numa bruma de neurastenia crescente, Bolsonaro tentou, mal eporcamente, passar a imagem de um homem ponderado, ciente de seu papel degovernante, em contraposição à sua natural performance grotesca de milicianoempoderado. Não poderia ter soado mais falso.
No dia seguinte, o escorpião picou o sapo: no Twitter,postou um vídeo de uma pessoa acusando os governadores de quererem matar o povode fome.
Pobres das almas que esperam ver jorrar alguma dignidadedesse esgoto a céu aberto, no Planalto Central.