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Festa junina não é Carnaval na Sapucaí

Festa junina não é Carnaval na Sapucaí

03/07/2023 às 05h00
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Festa junina não é Carnaval na Sapucaí

Só no Brasil é que a palavra"evoluir" pode significar algo pior, medíocre, algo que perde aqualidade existente. E é exatamente isso que está acontecendo com asfestividades de São João no Nordeste do Brasil, com a invasão de ritmosmusicais e a transformação das quadrilhas juninas em espetáculos de escolas desamba.

Eu acredito que tudo podemudar, mas para melhor, nunca para transformar o que é bom em algo que nãorepresenta mais o que costumava ser.

Vamos pegar como exemplo asnovelas na televisão brasileira. Podemos lembrar de algumas do passado e deoutras dos últimos dez anos. "Os Inocentes", "O Grito","Mulheres de Areia", "Pantanal", "Pecado Capital","Roque Santeiro". Elas possuíam textos primorosos, escritas porautores que vivenciavam a arte da criação com histórias populares quedespertavam o interesse dos telespectadores. Diferentemente de hoje, em queautores e diretores escrevem sobre suas frustrações pessoais e impõempersonagens e narrativas com as quais a maioria do público discorda. Oresultado disso é a queda da audiência para níveis nunca antes imaginados.

As quadrilhas juninas estão setransformando em escolas de samba, o que representa uma modernização quedescaracteriza sua essência cultural. As tradicionais roupas de matuto foramsubstituídas por vestimentas que lembram mais as escolas de samba desfilando naSapucaí, no Rio de Janeiro. Além disso, músicas eletrônicas com batidas maisadequadas para festivais de Raves estão sendo incorporadas, o que certamentefaria muito sucesso nesses eventos. No entanto, será que essa abordagem éapropriada para as festas de São João?

É importante preservar astradições culturais para que as novas gerações possam compreender e conhecer umpouco da história de seus antepassados. As novas manifestações culturais podemconquistar seu espaço sem necessariamente destruir o que foi construído pelopovo local. Há espaço para que todos possam se expressar por meio de suasapresentações e receber seus cachês, mas cada um deve respeitar sua tradiçãoespecífica.

O mesmo podemos perceber namúsica, nas quadrilhas juninas, nas comidas e nas bebidas típicas da região,que estão sendo substituídas por sabores que não representam a tradição daslocalidades. Como disse um dos leitores do artigo "Estão acabando com oSão João do Nordeste": "É com o coração apertado que assisto a esseprocesso de descaracterização das festas juninas nordestinas, capitaneado porpessoas cuja fome de dinheiro é insaciável. Escrúpulos e respeito às tradiçõesda região são irrelevantes", escreveu Eduardo Goulart.

Aproveito o momento paracompartilhar também as opiniões de outros leitores, até mesmo daqueles commaior vivência em suas localidades na região. Eles falaram sobre o assunto emdebate: "Concordo plenamente! Um povo que não preserva e valoriza suacultura se torna escravo e financiador da cultura alheia!", EduardoGoulart. "Um povo que não preserva sua cultura é um povo semmemória!", AMN. "Eu nasci no Rio de Janeiro e há algum tempo mudeipara Sergipe. A época que mais gostava, depois do Carnaval, era a das festasjuninas. No Rio, os festejos juninos ainda são mantidos como antigamente.Sempre adorei as comidas, as roupas (caipiras de chita bem colorida, laços erendas) e principalmente as músicas. No Rio, uma festa junina sem músicas deLuiz Gonzaga, Dominguinhos e outros do gênero não é festa junina. Quando estavame mudando para o Nordeste, comentei sobre como seria bom morar lá, ondedeveria ser o berço do forró e de tantas músicas e ritmos que fazem sucessonessa época. Qual não foi minha surpresa ao participar da primeira festa naregião, onde as músicas que principalmente os mais jovens querem são os ritmossertanejos e eles não sabem nem se interessam pelas nossas músicas juninas deorigem. Fiquei decepcionada ao conhecer o 'maior São João do mundo' (comodizem), na Paraíba. Lá, a decepção foi ainda maior, a apresentação da quadrilhamais parecia um desfile de escola de samba, as caipiras eram de tecidosbrilhantes, paetês e lantejoulas, cada grupo tinha até um tema, carro paraabrir o desfile e fazer apresentação, algo horrível e absurdo. As músicas,obviamente, eram de todo tipo, exceto as nossas músicas juninas de origem.Tradição é algo que não importa para eles. Eles não sabem que cresceremosquando preservamos nossas tradições, nosso folclore e tudo o que faz parte dahistória de um país", Carmen Menezes.

Esse é um assunto que nãoacaba aqui, e não pretendo que meu pensamento seja absoluto sobre o tema. Masuma coisa é certa: as manifestações culturais não podem ser apropriadas porempresários e prefeitos, nem pelos artistas, com o único propósito de ganhardinheiro em abundância. Precisamos continuar o debate para que amanhã nãotenhamos que presenciar uma quadrilha acompanhada por uma escola de samba eachar que isso será lindo.

Respeitem a cultura e asmanifestações artísticas do meu Nordeste!

Um escritor pode trocar suamáquina de escrever por um computador, mas seus textos continuarão sendoescritos com sua personalidade. 

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