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Cro?nica do impe?rio em decli?nio

Cro?nica do impe?rio em decli?nio

27/07/2024 às 21h19 Atualizada em 27/07/2024 às 21h19
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Cro?nica do impe?rio em decli?nio

Para Charles Pessanha, in memoria

“Na histo?ria dos EUA, democratas e republicanos cerraram fileiras para defender o imperialismo” - Claudia de la Cruz, candidata socialista a? preside?ncia dos EUA

Desta feita, a compete?ncia que na?o faltou a Lee Oswald fugiu da mira do jovem Thomas Matthew Crooks, livrando a histo?ria estadunidense de mais um trauma, algo que se dira? natural, ou lo?gico, em sociedade e nac?a?o construi?das e sustentadas pela viole?ncia interna, que leva para fora de seus limites sua esse?ncia constitutiva: a viole?ncia larvar, a viole?ncia do dia a dia e a viole?ncia estritamente poli?tica; a viole?ncia social, a viole?ncia interpessoal e intergrupos. A viole?ncia racial e a viole?ncia nas relac?o?es com outros povos, a partir da autoconvicc?a?o paranoide de sua superioridade, e de seu dever, derivado dessa alucinac?a?o, de impor-se a todo o mundo como matriz, assim como a fe? era levada aos i?mpios pelas espadas sagradas dos cruzados: a ferro e fogo.

Consideremos um recorte de suas disputas poli?ticas: quatro presidentes assassinados (Abraham Lincoln, James Garfield, William McKinley e John Kennedy); dois presidentes vi?timas de atentados (Ronald Reagan e Theodore Roosevelt, este antes de tomar posse); um candidato a? preside?ncia assassinado (Robert Kennedy) e, dentre as muitas personalidades abatidas a tiros, Martin Luther King e Malcolm X. Nesta lista se insere, agora, Donald Trump, sobrevivente como Reagan, seu colega de partido e irma?o no reacionarismo.

Enquanto Biden, em cena aberta, se reconhecia como ator sem enredo e sem “ponto”, o oponente se consagrava no papel de grande bufa?o. Nos gestos, nas falas, nas propostas, como na trucule?ncia. Nessa arte ele é imbatível. O aparentemente inexplicado e? que o candidato dos ricos expressa a alma perena do americano comum, assustado com a decade?ncia do pai?s, que lhe haviam ensinado na escola, no servic?o militar e na igreja haver sido escolhido por Deus para ser uma nova Canaa?: a maior, a mais rica e poderosa nac?a?o do mundo. Por isso Trump e? um candidato perigoso, como perigoso se revelou o vice que tirou do colete, para quem a esse?ncia da alma americana esta? em um fuzil. Aqui, gente também desprezi?vel diz o mesmo, com igual desenvoltura e igual sucesso, inclusive nos palcos das corporações neopentecostais.

Apesar de tudo, na?o ha? nada de novo no front, pois quase nada muda naquele pai?s, qualquer que seja o partido no governo. Persiste a poli?tica de expansa?o imperialista, motivada pela pro?pria formac?a?o histo?rica, mas alimentada pelo complexo industrial-militar, que precisa de guerra para sobreviver.

A diferenc?a entre o Partido Republicano e o Democrata e? a que se identifica entre irma?os siameses. O mesmo se aplica a seus li?deres na Casa Branca. Foi o democrata Harry Truman que em 1945 lanc?ou duas bombas ato?micas sobre a populac?a?o civil de um Japa?o ja? derrotado; foi ele ainda quem criou a chamada Guerra da Coreia (um mortici?nio ainda muito pouco comentado), enquanto o republicano Dwight Eisenhower negociou o du?bio armisti?cio. Foi o democrata Lyndon B. Johnson quem deu ini?cio a? invasa?o do Vietna?, enquanto ao republicano Richard Nixon coube negociar a paz. Os democratas John Kennedy (que conduziu a fracassada invasa?o de Cuba) e o mesmo Lyndon Johnson, seu sucessor, articularam o golpe militar no Brasil, em 1964, enquanto o republicano Nixon dirigiu a derrubada de Allende no Chile.

Joe Biden, democrata, a quem a humanidade deve haver derrotado Trump, como devemos a Lula a derrota de Bolsonaro, vito?rias e derrotas que se equivalem, iniciou a reto?rica beligerante contra a Ru?ssia e a China, a quem impo?s seguidas restric?o?es comerciais e embargos tecnolo?gicos. É o principal fornecedor de recursos e armas para a Ucra?nia e para o sionismo israelense. É sua poli?tica que da? sustentac?a?o ao governo criminoso de Benjamin Netanyahu, portanto a? guerra de agressa?o e extermi?nio povo palestino, ora em curso, e sem indicação de termo. Trump, em seu quatrie?nio, provocou o quanto po?de o governo chine?s, que seu candidato a vice anuncia como o novo “inimigo nu?mero um” dos EUA. Todos os presidentes americanos, democratas e republicanos, de John F. Kennedy a Biden, passando pela dinastia Bush, tentam sufocar o povo cubano, num cerco covarde que chega a?s raias do genoci?dio.

Em que se diferenciam esses partidos para supormos que uma administrac?a?o democrata, com Joe Biden ou Kamala Harris, nos poderia e pode ser mais favora?vel?

O presidente Lula se entendeu muito bem com o republicano George W. Bush (chegaram mesmo a desenvolver um certo grau de amizade), e terminou seu governo dizendo-se trai?do por Barack Obama, o presidente democrata cujo governo instalou escutas no gabinete da presidente Dilma Rousseff e invadiu os computadores da Petrobras.

Kamala – nas circunsta?ncias do doloroso decli?nio cognitivo de Biden –, sera? melhor candidata, mas nada nos assegura que sera? também melhor presidente, e nada nos diz que estara? a? esquerda do presidente.  É mulher e negra, de origem indiana, o que e? relevante como simbolismo – mas e? pouco, visto que identidade na?o define ideologia, nem linha poli?tica. Mulher e negra, mas reaciona?ria, era Condoleezza Rice, Conselheira de Seguranc?a Nacional e Secreta?ria de Estado nos dois governos do republicano George W. Bush, que destroc?ou o Iraque, a partir da sabidamente falsa  acusação de armas atômicas na posse de Saddam Hussein.  Mulher (branca) e imigrante era Madeleine Albright, Secreta?ria de Estado no governo do democrata Bill Clinton. Uma faci?nora.

 Política provinciana, Harris destacou-se como procuradora linha-dura, que deu sua parcela de contribuição para o massivo encarceramento de negros em seu país; seu mandato como senadora foi de pouco lustro e, contrariando as esperanc?as nela depositadas, foi uma vice-presidente apagada. Admite-se, até, que tenha sido propositalmente apagada pelo establishment democrata, fechado a mudanc?as. No contraponto, o currículo de Trump é explosivo. Neofascista, abertamente racista, negacionista climático, responde a processos como estelionata?rio e sonegador de impostos, e foi condenado por estupro. É, ademais, mito?mano. Retornando a? preside?ncia, transformara? os EUA em instrumento de articulac?a?o da extrema-direita em todo o mundo e consolidará a transição do capitalismo monopolista financeiro em capitalismo de guerra. No Brasil sera? saudado pela su?cia bolsariana, inclui?do o partido militar.

 

Nesse quadro, uma torcida sensata pelo êxito da oponente se justifica.

Mas a questão de natureza fundamental, e aquela que mais nos diz respeito, e? a batalha ideolo?gica, tanto mais necessa?ria quando assistimos ao crescimento da extrema-direita aqui e alhures. La? e ca?, pai?s diretor e pai?s dependente (como na Europa e noutros países da Ame?rica do Sul), a direita semeia a tensa?o no terreno arado pelo fracasso dos governos social-democratas e de centro-esquerda  no enfrentamento dos desafios da crise estrutural do capitalismo, em mundo econo?mica, poli?tica e ciberneticamente globalizado.

 A inseguranc?a econo?mica e? um dos vetores da erosa?o da classe me?dia, a?s voltas com a crise do trabalho (a revolução tecnológica é fator essencial, mas não único para a crise), a concentrac?a?o de renda e a viole?ncia, para a qual, dentro do capitalismo, a esquerda na?o conseguiu formular uma poli?tica, para ale?m da necessa?ria defesa dos direitos humanos. A esfinge a decifrar: por que o discurso protofascista vem a ser assimilado – em pai?ses de formac?o?es poli?tico-sociais e econo?micas ta?o distintas –, pelas vi?timas da hegemonia capitalista, geradora das disfunc?o?es econo?micas e sociais? Sa?o hoje eleitores de Trump e Le Pen, há pouco votaram em Bolsonaro e Javier Milei. Lá tra?s, os explorados de sempre foram  eleitores de Mussolini e Hitler, caminhndo nas mesmas fileiras da alta burguesia industrial e financeira.

 A histo?ria mostra que o recuo, às vezes uma tática necessária, na?o pode ser uma estrate?gia e, ainda mais, que o projeto eleitoral na?o pode desapartar-se do dever doutrina?rio. Uma vez mais vale estudar a experie?ncia recente da esquerda francesa, que, a partir de sua unidade, valeu-se do debate ideolo?gico (a denu?ncia do capitalismoe a apresentac?a?o de programa alternativo) e conquistou a vito?ria eleitoral conhecida, quando, entre no?s, as forc?as majorita?rias da esquerda limaram de seu diciona?rio o socialismo.

***

Uma eleição crucial –  A eleição venezuelana desse domingo, 28/07, é de importância crucial, porque poderá influir na  política sul-americana. Não se sabe, portanto, o que foi feito da estratégia brasileira, que sempre considerou a importância geopolítica do continente, e de nossa inserção no continente. Nada a estranhar quando a imprensa corporativa aqui circulante, reflexa (por dependência econômica consabida e subserviência ideológica gratuita), leva a cabo sua campanha contra o governo venezuelano, e não o faz considerando seus erros, mas acicatada pelo fato, considerado inadmissível, de o país vizinho haver, com Chávez, rompido o mando da classe dominante local, e, mais importante do que tudo, ousado desafiar os EUA, e ajudar Cuba. Desde então a Venezuela vem pagando preço altíssimo, que inclui boicote econômico e sequestro de bens e recursos financeiros. E, por óbvio, a campanha internacional, que, fundada na distorção dos fatos, tenta desmoralizar esse esforço de autonomia política. A imprensa brasileira simplesmente reflete esses interesses, que, no fundo, visam a impedir qualquer iniciativa voltada à unidade no Continente, ainda considerado, pela Casa Branca mas igualmente pela Faria Lima, como quintal do grande império. Venezuela foi colocada pelos EUA no  índex dos países "do mal", aqueles que precisam ser eliminados, com sua gente. É posta ao lado de Cuba, do Irã, da Coreia Popular e de mais uns poucos insubordinados.  Nada estranhar, portanto, que a imprensa brasileira, useira e vezeira em expedientes aéticos, tenha distorcido uma declaração do candidato Maduro, quando denunciava  que sua eventual derrota levaria a Venezuela à guerra civil. Desonesta, a mídia corporativa capou do fraseado do candidato a última oração, aquela que dizia que o banho de sangue seria uma iniciativa da direita fascista. Mas a centro-esquerda brasileira entrar nesse engodo, alimentá-lo, e mesmo o presidente Lula, com sua tradição de defesa de nossos povos, fazer eco a essa infâmia, é injustificável. A quem aproveita a declaração do presidente, reproduzida mundo afora? O silêncio, decerto, teria sido contribuição mais positiva do nosso dirigente ao processo venezuelano - que todos queremos pacífico - do que sua declaração infeliz sobre "banho de sangue", reforçando distorção propagandeada pela velha imprensa brasileira. É um consolo acreditar que o tropeço de Lula tenha sido apenas um improviso. Mas pode um chefe de Estado se permitir improvisar sobre tema de relevância estratégica, ciente do peso de qualquer declaração sua?

Solidão selvagem – A subida da rampa pelo presidente Lula para seu 3º mandato, carregada de simbolismo (e o símbolo é um dos vetores da política), emocionou e alimentou grandes esperanças, aquelas que vinham sufocadas desde as eleições de 2018. A presença do cacique Raoni Metuktire, somada à inflexão do discurso sobre os povos originários (passada a longa noite bolsonarista), fez crer que se virava uma página na longa história de violência contra nossos indígenas –continuidade do genocídio que se inicia com a invasão portuguesa –, intensificada nos anos recentes. Passado um ano e meio, a colheita é pobre: a demarcação de terras e as ações de proteção e assistência a essas comunidades permanecem tímidas, insuficientes, enquanto persistem as invasões e agressões diversas aos indígenas, mantendo-se elevados os índices de assassinatos, suicídios e mortalidade infantil entre esses povos. No Congresso, a direita majoritária fabricou a Lei nº 14.701/2023, que desafia o STF ao recriar a infame tese do “marco temporal’, e os vetos de Lula foram, posteriormente, derrubados – tudo com apoio massivo de partidos que detêm cargos no Governo. Estas denúncias estão contidas no extenso relatório “Violência contra os povos indígenas no Brasil – dados de 2023”, lançado pelo Cimi (no último 22/07, em Brasília. Dada a eloquência dos dados, é mais que sintomática a ausência, no evento, de representantes dos nossos partidos políticos, e muito lamentável a ausência da própria CNBB, que sediou o encontro.

 Vence o fiscalismo – Segundo o presidente Lula, a União doa à minoria dos ricos e muito ricos (deste país de tantos pobres), anualmente, R$ 546 bilhões sob a rubrica de “isenções”, fábula que não foi cogitada pela equipe econômica quando venceu a batalha pelo “ajuste fiscal”. Foram cortados do orçamento  da União cerca de 12 bilhões, e outros 3 bilhões desaparecerão dos ministérios sob o título de contingenciamento. Enquanto isso, os bancos vão muito bem, obrigado. No último trimestre, os quatro líderes do oligopólio financeiro (Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil) auferiram R$ 26 bilhões de lucro, uma alta de 10% sobre o resultado do mesmo período no ano passado. Assim se explica porque a massa de renda das classes A e B é a que mais cresce com a alta do mercado de trabalho e os juros altos, como informa o Valor (05/07/24), que, para esse tema, é insuspeito.

Francis Bogossian de volta ao Clube de Engenharia – As circunstancias históricas cobram do Clube de Engenharia a missão, urgente, de discutir o destino do projeto nacional  de desenvolvimento, e, nele, o papel essencial  da engenharia brasileira. Trata-se, pois, de desafio que requer liderança política, corporativa e moral, qualidades que marcam a personalidade de Francis Bogossian.

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral

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