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O pecado de Zefinha

O pecado de Zefinha

17/12/2025 às 12h19 Atualizada em 17/12/2025 às 12h19
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O pecado de Zefinha

Zefinha é uma daquelas carolas de igreja que quase já não sevê por aí. Mantém o legado das mulheres que ainda usam véu nas missas dedomingo e uma fita no pescoço em respeito ao “Coração de Jesus”. E tudo isso empleno século XXI. Algo que só acontece nas pequenas cidades do Brasil, onde otempo insiste em não passar.

Mas Zefinha, mesmo vivendo no século XVIII no quesitoreligiosidade, está antenada nas notícias da política e tem seu candidato deestimação desde que ele se tornou presidente. Como gosta de repetir em alto ebom tom: “mudou a vida do povo pobre”. Principalmente dos nordestinos que hoje,orgulhosos, enchem o peito e dizem: “nos respeitem, pois o melhor presidenteque este país já teve e tem é da nossa região”.

Ela, como boa cristã, tem seu grupo de amigas que jápassaram dos cinquenta. A turma se encontra para ir juntas à igreja e aproveitapara colocar as conversas em dia. Falam dos filhos que tiveram de sair dacidade em busca de emprego, dos que hoje estudam em faculdade graças ao ENEM –Exame Nacional do Ensino Médio, das filhas que insistem em namorar homens “semfuturo” e dos maridos, os que ainda estão vivos, invariavelmente criticados pornão fazerem mais nada que preste.

Na era da polarização política, até mesmo as amigasreligiosas acabam se envolvendo em polêmicas, como se fossem parte de torcidaorganizada. Naquele domingo, Maria do Rosário resolveu puxar um assunto quecirculava nos grupos de WhatsApp das tias. Disse de forma provocativa que “quemvota no Lula não vai pro céu”. Pronto, estava criada a divisão entre as carolas,deu-se o início da terceira guerra mundial. Zefinha ficou arretada, abandonouas amigas e atravessou a rua em silêncio, sendo seguida por algumas das carolas.De longe se ouvia os passos delas.

– Tá vendo o que você fez? – sussurrou outra amiga,repreendendo Maria, que manteve o que disse e não pediu desculpas. 

As amigas foram à igreja, assistiram à pregação do PadreInaldo como em todos os domingos. Mas, pela primeira vez, a catedral se dividiuem dois grupos. A polarização havia chegado até ali.

Incomodada, Zefinha já não conseguia dormir direito. A falade Maria, de que votar em Lula significava perder a salvação, a deixava tristee preocupada. Não queria abrir mão do voto, mas também não queria perder o céu.Sua devoção, mesmo amando o trabalho do “seu presidente”, parecia não sersuficiente se isso significasse o caminho do inferno.

Decidida, procurou o padre para uma confissão. Entrou naigreja pronta para expor seu temor e cumprir o que o sacerdote determinasse.Estava preparada para rezar centenas de Ave Marias e Pai Nosso, penitênciacomum na Igreja Sagrada Família, que na praça principal da cidade de cinco milhabitantes.

Ajoelhou-se no confessionário diante do padre, que já ouvirahistórias de maridos pulando a cerca, filhas enrabichadas por moleques semfuturo e carolas com pecados quase inconfessáveis. 

– Padre – sussurrou Zefinha, com a voz embargada. 

– Diga, minha filha – respondeu o padre, no tomhabitual. 

– A Maria do Rosário me disse, dias atrás, que eu não voupara o céu.

O padre virou o rosto rapidamente e perguntou: 

– E por que ela disse isso a você? 

– Porque quem vota no Lula comete pecado e não vai para océu – disse Zefinha, já com lágrimas nos olhos.

– Isso é coisa de quem não tem o que dizer. Volte a ela ediga que o padre Inaldo também é eleitor do Lula. Quem vai direto para oinferno é quem defende a morte de outros cristãos, quem usa o nome de Deus emvão, quem expulsa pessoas de uma cidade só porque são pobres. Minha filha, quemvai para o inferno é vota em Bolsonaro e quem nega o cristianismo e separafamílias com mentiras.

Zefinha abriu um sorriso, limpou as lágrimas e, desta vez,nem perguntou qual seria sua penitência. Apressou os passos em direção à portada igreja, de onde só se via seu vulto. Pobre da Maria do Rosário quandoZefinha a encontrar.

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