
Está em curso a mais espetacular virada desde a queda deRoma. A supremacia anglo-saxã, imposta paulatinamente desde as circunavegaçõese revoluções burguesas, busca sobrevida perante a arrancada, até há poucoimplausível, de desafiantes poderosos.
Ontem à tarde, Washington avisou aos latino-americanos:percam as ilusões de autonomia, domínio da riqueza própria, desenvolvimentointegrado, respeito aos direitos humanos, superação de valores racistas epatriarcais, reconhecimento de povos originários e vida social em harmonia coma natureza: nada disso nos interessa, o mundo é dos fortes e nós somos osfortes. Washington não se move por nossos interesses.
Anthony Blinken, em outras palavras, encarnou areligiosidade consagrada em 4 de julho de 1776, segundo a qual o novo paísseria terra da promissão e, por mandato divino, surgira para dominar o mundo.Encarnou também o recado de Monroe, emitido em 1823, segundo o qual ninguémd’além-mar se metesse em terras americanas.
Pleno de autoridade, Blinken declarou encerrada as eleiçõesna Venezuela e proclamou eleito Edmundo González. Santificou os baderneiros àsoldo de golpistas, atribuindo-lhes a condição de cidadãos de bem. Exigiu queas forças da lei não reprimissem o quebra-quebra terrorista.
Diante de um governo venezuelano envolto em procedimentoseleitorais demorados e de líderes latino-americanos demasiado prudentes, paranão dizer desavisados, Washington atribuiu-se poderes de junta eleitoral nopaís que abriga a maior reserva de petróleo do mundo, projeta-se sobre oAtlântico e o Pacífico e é porta de entrada para a Amazônia.
Anthony Blinken ungiu-se da condição de porta-voz do povovenezuelano e da “comunidade internacional”. Ditou regras para “uma transiçãotransparente” do poder na Venezuela. Com uma penada, jogou ao córner tratativasde entendimento com os maiores países latino-americanos: Brasil, México eColômbia. Deixou três respeitáveis líderes democratas na condições de atoresirrelevantes.
Trata-se de intervenção direta, sem meneios.
A arrogância desmesurada acaba prestando serviços aoslatino-americanos: alerta os crédulos na profissão de fé democrática doscandidatos a donos do mundo.
Não há grandes novidades no processo vivido pela Venezuela.Muitos imaginavam que a lisura das eleições seria o grande objetivo deWashington. Preferiam esquecer o longo rol de intervenções que, desde o séculoXIX, impossibilitaram o exercício efetivo da soberania, a estabilidadepolítica, o desenvolvimento socioeconômico, as reformas sociais e a integraçãolatino-americana. Depositaram fé em bons propósitos de quem se acreditacredenciado por Deus a organizar a vida no Planeta.
Os democratas e reformistas sociais latino-americanos estãodiante de duas opções: acatar a sina de colono submisso ou rejeitar a vontadeimperialista. Não se trata de apoiar ou rejeitar Maduro ou Gonzáles. Trata-sede defender a soberania venezuelana e, por extensão, a soberania dos paíseslatino-americanos, lembrando que nenhum deles pode se defender sozinho.
Não se trata, ainda, de simpatizar ou não com programasgovernamentais que afetem a vida do povo venezuelano, eternamente saqueado peloImpério. Trata-se simplesmente do direito de cada Estado definir com autonomiasuas políticas públicas e erradicar de vez a condição de Washington de xerife etribunal do mundo.
A carência de petróleo de Washington não pode ser resolvidaatravés da guerra. Aliás, a guerraamplia desmesuradamente tal carência. A ordem mundial será digna quando aspráticas de pilhagem forem substituídas por negócios vantajosos para as partesinteressadas. Essa proposição se choca com a experiência histórica, mas nãopodemos deixar de sonhar com um mundo de paz.
Não existem perspectivas alvissareiras para a América Latinasem a formação de uma grande corrente que conjugue a luta contra o imperialismocom a luta pela democracia e por reformas sociais. A integração de esforços daAmérica Latina não pode ser postergada.
Não vivemos numa ilha isenta das turbulências planetárias.Podemos entrar subitamente no olho do furacão provocado pela mudança da ordemmundial. As pretensões de Washington estão nos conduzindo neste sentido. É horade nosso subcontinente tomar decididamente partido contra a presunção daunipolaridade.
A política tem lógica e a intervenção estadunidense naVenezuela escancara as pretensões imperiais dos Estados Unidos. Washington nãotem direito de proclamar González presidente da Venezuela.
Defendendo o povo e o Estado venezuelano, defenderemos ospovos do mundo.
Manuel Domingos Neto
Roberto Amaral
José Genoino Neto.
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