No município de Remanso, a 210 quilômetros de Juazeiro, 159famílias de 27 comunidades rurais foram contempladas com as ações de apoio aapicultura. O trabalho começou com uma capacitação que visou organizar a cadeiaprodutiva, detalhar e qualificar o desenvolvimento da atividade e,principalmente, acabar com o extrativismo rudimentar, que dizimava os enxamespara extração do mel.
Em Pilão Arcado são 38 comunidades rurais atendidas, nasquais moram e trabalham 155 famílias de pequenos agricultores. Os trabalhos decadastramento, treinamento, entrega de kits para produção e acompanhamentotécnico começaram no ano passado nos três municípios, e em algumas comunidadesprosseguem até o final deste mês.
Já o município de Campo Alegre de Lourdes concentra o maiornúmero de comunidades atendidas – são 45 comunidades que reúnem 220 famílias,todas elas selecionadas pelos critérios estabelecidos pelo Plano Brasil semMiséria, como também pela aptidão para a atividade apícola.
Segundo Everaldo Cavalcante, coordenador dos trabalhos na 6ªSuperintendência Regional da Codevasf, em Juazeiro, os benefícios dessa ação seestendem a cerca de 2.100 pessoas nos três municípios.
Todas as localidades atendidas pela Codevasf recebem omaterial necessário para o desenvolvimento da atividade. Foram implantadas atéagora 10.680 colmeias com suporte de ferro para fixação no campo, 10.680 quilosde cera de abelha, divididas em placas já alveoladas, 1.068 indumentáriascompletas, 534 formões, carretilhas e fumigadores.
Cada família passa a produzir mel com a utilização de cercade 20 colmeias completas, mais os equipamentos. O investimento é deaproximadamente R$ 2,6 milhões, recursos oriundos do Plano Brasil sem Miséria –conjunto de ações do governo federal voltado para a erradicação da pobrezaextrema e coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome(MDS).
Os pequenos agricultores, que antes praticavam só aagricultura de subsistência, foram selecionados por meio do cadastramento feitodentro das exigências do Plano, entre elas a de estarem incluídas no CadastroÚnico para Programas Sociais (CadÚnico) e se encontrarem na linha de pobreza ouextrema pobreza.
Economia.
Segundo estimativas de técnicos da Unidade Regional deDesenvolvimento Territorial, da Gerência Regional de Revitalização da Codevasfem Juazeiro, a produção em condições normais edafoclimáticas (relação entreplanta, solo e clima) é de 40 quilos de mel por colmeia ao ano, e o valor mínimodo quilo de mel nos três municípios varia entre R$ 4,30 a R$ 5,60.
Espera-se que o trabalho realizado pela Codevasf incrementea produção apícola nos três municípios em cerca de 427,2 toneladas de mel porano, e injete mais de R$ 1,8 milhão no comércio local de cada um dessesmunicípios.
Para Priscila Martinez, gerente regional de Revitalização,“um item relevante em relação ao produto é que o custo de produção é de cercade R$ 1,50, o que proporciona aos apicultores familiares um lucro aproximado de65% por quilo de mel produzido”.
O superintendente regional da Codevasf em Juazeiro, AlaôrGrangeon, comenta que “com ações como essa, podemos proporcionar melhorescondições técnicas de trabalho para as famílias rurais beneficiadas, quedisporão de materiais e apetrechos adequados ao manejo apícola, e poderãodesenvolver melhor essa atividade, obtendo assim melhores resultados econtribuindo para a sustentabilidade social, econômica e ambiental em suascomunidades”.
Comercialização
Um dos municípios que possuem vocação para o desenvolvimentoda apicultura na região extremo norte da Bahia é Campo Alegre de Lourdes, a 840quilômetros de Salvador. Há algum tempo a atividade era desenvolvida de formaextrativista, através de “meleiros”, que retiravam o mel destruindo os enxamesnas matas.
Mesmo incipiente, a atividade fez surgir em outubro de 1996a Cooperativa dos Apicultores de Campo Alegre de Lourdes (Coapical), que passoua centralizar a coleta, beneficiamento e comercialização do produto.
Segundo o presidente da entidade, Clemente Duarte Mendes,“atualmente a cooperativa possui 42 associados devidamente cadastrados, masexistem mais de 100 produtores no município que utilizam os serviços dacooperativa, e que ainda não se cadastraram”.
Para Jademiro Deveza da Silva, conselheiro da Coapical, “acooperativa exerce um papel importante no desenvolvimento socioeconômico daregião. Aqui temos um contrato com a Conab, e fornecemos sachês de mel a R$ 9 oquilo para a merenda escolar”.
O tesoureiro da entidade, Gledson Pereira de Lacerda, fez ascontas e afirma que um balde com 25 quilos de mel pode variar entre R$ 145 a R$170. “Este ano, de janeiro a março, já beneficiamos perto de 19.600 quilos demel, sendo que 10% deste total é de mel orgânico – que não contém produtoquímico ou cujas colmeias não têm contato com áreas que utilizam químicos, comolavouras”.
“No ano passado, arrecadamos perto de R$ 90 mil, e grandeparte desse total foi enviada para o sul do país, em tonéis de 280 kg”, afirmaGledson. A cooperativa tem contrato de fornecimento com uma empresa paranaenseque exporta o produto para a Europa.
O mel de Campo Alegre de Lourdes é certificado por essaempresa, que envia uma comissão de técnicos para verificarem a qualidade domel, orgânico ou não, e repassa aos produtores um código de identificação doproduto. Segundo o tesoureiro da Coapical, somente três produtores no paísconseguiram esta certificação.
Nova atividade
No período de janeiro a maio deste ano, segundo o técnicoagropecuário Moacir dos Santos Nunes, “algumas famílias conseguiram produzir 40quilos de mel por colmeia, e vender até por R$ 6 o quilo de mel orgânico. Emcinco meses foram contabilizados R$ 4,8 mil – o que, dividido por mês, chega auma renda de até R$ 960 para o produtor de mel orgânico”.
Pensando nesses resultados, em Campo Alegre de Lourdes aretirada do mel já começou para algumas famílias. É o caso do pequenoagricultor Salvador da Silva Lopes, de 35 anos, casado e pai de dois filhos, eque já trabalhou por empreitada como meleiro.
Ele mora na comunidade de Barreiro do Espinheiro, eparticipou com a esposa, Maria Gorete dos Santos Souza, de uma capacitaçãosobre criação de abelhas para produção de mel, ministrada pela Codevasf. “Agoraeu estou trabalhando do jeito certo. Ganho eu e ganha a natureza também”,afirma Salvador.
Ele afirma que não vai abandonar a pequena agricultura, eque vai continuar plantando milho, feijão e criando alguns animais de pequenoporte. “Mas eu já estou ganhando um dinheirinho, mais do que se eu estivessetrabalhando na roça”, confidencia o apicultor.
Salvador já fez planos, e separou dois baldes de 25 quilospara vender na Coapical. Nesta Páscoa, pela primeira vez o agricultor pôde daraos filhos um mimo que eles antes nunca tinham experimentado: um ovo dechocolate.
Para o morador da comunidade de Sítio Novo do Pedrão,Raimundo Rodrigues da Silva, de 40 anos, “aqui no Nordeste a gente sempre foieducado para trabalhar na agricultura, mas depois do inverno, quando vamos tiraros resultados, depois de muito trabalho, quase sempre não sobra nada. Mas agoracom a criação de abelhas nós vamos diminuir o trabalho pesado e ter um bomresultado. Na verdade é a abelha que vai trabalhar pra gente, né?”, diz o novoapicultor.