- Você já leualgum livro além dos escolares?
- Não.
- Seus professoreslhe recomendaram algum livro?
-Uma professoradisse para eu ler Dom Quixote.
-Ela falou algumacoisa sobre o Dom Quixote?
- Não, nada.
- Qual a matériaque você mais gosta?
-Geografia.
-Você sabe ascapitais dos estados?
- Sei
- Então vamos lá:Amazonas? (nada) Ceará ? (nada) Pernambuco ? (nada) Minas Gerais? (nada).
Afinal, acertou ascapitais de 3 estados: Alagoas, São Paulo, Rio de Janeiro, e disse saber queBrasília era a capital do Brasil.
- Você sabe acapital de algum país além do Brasil?
- Acho que não.
-Você estudainglês?
- Estudo.
- Há quantos anos?
- 3 anos.
-Sabe algumapalavra em inglês?
- Sei, are.
-O que é are?
-É um verbo.
- Seria o verbo tobe?
- O que é isso?
- Sabe algumnúmero em inglês.
- Sei. (citoucorretamente de one a ten )
-Ontem foi o Diada Consciência Negra, falaram sobre isso na sua Escola?
- Falaram, falaramem Zumbi.
_ Quem foi ele?
- Ele lutou pelosescravos.
- Quem assinou aLei acabando a escravatura no Brasil?
- A Rainha daInglaterra.
Alunos como este,vítima de um sistema disfuncional não existem apenas em Sergipe. Eles estão emtodos os estados brasileiros, aos milhares, aos milhões.
Cada dia quepassa, em cada escola pública, um jovem brasileiro deixa de colocar um tijolona construção do seu próprio futuro. A manutenção deste modelo emperrado, é omesmo que abrir para o Brasil a tampa de lixo da História.
Se os políticosprincipalmente senadores, deputados, vereadores, não começarem a entender aeducação como uma Política de Estado, necessariamente afastada das ingerênciaseleitoreiras, não haverá presidente, não haverá governador nem prefeito queconsiga realizar as transformações necessárias. O professor não pode ficarolimpicamente ausente dessa luta que não se resume à conquista de salários.Qualquer melhoria na qualidade do nosso ensino só será alcançada quando houverum processo criterioso e permanente de avaliação. Isso acontece em todos oslocais onde a escola apresenta bons índices de aproveitamento, auferíveisatravés do desempenho dos alunos, com isso, avalia-se também a capacidaderevelada por cada professor para transmitir com eficiência o conhecimento.
Por outro lado,dos docentes recebendo salários incompatíveis com a dignidade e a importânciada função que desempenham, não se poderá exigir muito. Os alunos não podem serpenalizados com as greves infindáveis que transformam o calendário escolar numamera peça de ficção.
A persistência deum conflito recorrente, algumas vezes radicalizado, entre as representações dosdocentes e o poder público, poderá favorecer eventuais interesses eleitoreirosparticulares, mas é um malefício que recai sobre a sociedade em geral, e teráde ceder lugar ao diálogo democrático do qual participem o professor, os pais dealunos, os próprios alunos, o poder político, o Ministério Público.
Enquanto ointeresse eleitoral cercar a escola com a nomeação política de diretores, vices- diretores, secretários, e ainda ocupando espaços nos pontos nevrálgicos dagestão educacional, não se terá ensino eficiente, porque administração ecomitês eleitorais não se devem misturar. Por isso, é preciso fechar as portasdas Secretarias da Educação para políticos sonhando com candidaturas.
Cheguemosespecificamente a Sergipe. No governo Marcelo Déda, depois que um técnico comoo professor Jose Lima foi derrotado em seus propósitos de qualificar o ensino,profissionalizando sua gestão, Déda procurou alguém com maior experiênciapolítica, exatamente para dialogar politicamente e tentar reduzir a pressãoeleitoreira sobre a gestão do ensino. O escolhido foi o seu vice no primeiromandato Belivaldo Chagas, que não era exatamente um técnico na área, mas, umquadro dotado de sensibilidade, transito político e infinita disposição paradialogar, sobretudo alguém que dera por encerrada a sua carreira política e nãoalmejava ser candidato a nenhum cargo eletivo. O conflito foi reduzido, mashoje, fazendo uma analise retrospectiva sobre os seus suarentos anos à frenteda Secretaria da Educação, Belivaldo está convicto de que nenhum esforço daráplenos resultados enquanto o interesse eleitoral não se afastar da escola. Esseera também o objetivo duramente perseguido pelo governador Marcelo Déda. Eleencontrou as maiores resistências dentro do seu próprio partido.
Na cruzada que fazpela educação o senador Buarque só enxerga uma forma de afastar do ensinopúblico as mazelas que nos municípios e nos estados, principalmente os maispobres, fazem das nossas escolas essas fabricas de analfabetos funcionais quetemos hoje. Buarque tem um projeto para federalizar os dois níveis de ensinoque competem constitucionalmente aos estados e municípios. Ele propõe aavaliação do desempenho de cada escola; meritocracia na escalada funcional doseducadores, e, para eles, um salário base de 9 mil e 500 reais, o que estariafora do alcance de estados e municípios, mas, poderia ser conseguido com afederalização. Cristovão quer também a escola em tempo integral, tal comosonharam Darci Ribeiro e Leonel Brizola.
O professor JorgeCarvalho com a experiência que acumula na área da educação, e o saber que foiampliar em um doutorado na Alemanha, enxerga na idéia do senador uma espécie deluz no fim do túnel onde mergulhou a escola pública brasileira.
No município deAracaju parece que surgem boas notícias na educação com a queda de braçovencida pela Secretária Márcia Valéria. Ela vai implantando o sistema deavaliação do desempenho das escolas, e para isso teria carta branca do prefeitoJoão Alves.
No caso da redepública estadual o problema é bem mais complexo, o desafio é ainda maior. Eaqui não cabe enumerar os obstáculos que terão de ser enfrentados.
Jornalista Luiz Eduardo Costa.