A estratégia central norte-americana é afirmar sua hegemoniamundial a partir da força. É-lhe intolerável a realidade de um mundo apolar oumultipolar em face da presença de um competidor nuclear como a Rússia e de umapotência econômica ascendente como a China, também ameaçadora, a médio prazo, no campo militar. Para os neoconservadores, ahora de agir é agora, antes que essas forças rivais criem raízes maisprofundas. O pretexto ucraniano vem a calhar. Depois de derrubar um governolegítimo e colocar em seu lugar um bando de facínoras, o próximo passo é a incorporaçãoda Ucrânia à OTAN, em aberto desafio à Rússia. Só com muito sangue frio Putinpoderá contornar mais essa provocação no quintal da Rússia.
É muito fácil começar uma guerra de grandes proporções naterra dos outros, sobretudo quando setem a ilusão de um poder assimétrico em relação ao adversário e mesmo quando não se tem certeza quanto aosefeitos. É que, uma vez instalado o caos que se segue a uma guerra, não bastater imensa superioridade miliar para controlar suas consequências. Os EstadosUnidos são peritos em começar guerras inacabadas: foi assim na Coreia, noVietnã, no Iraque, no Afeganistão; mais recentemente insuflaram revoluções nonorte da África, que resultaram em dramática carnificina e permanenteinstabilidade na Líbia e no Egito. Entretanto, quando se trata de conseguir apaz, os Estados Unidos lavam as mãos. Os outros é que cuidem do estrago queprovocam, como no Haiti e no Iraque.
É muito fácil entender a estratégia dos chamadosneoconservadores americanos que acabaram de colocar agora um representante naprincipal cadeira no Departamento de Defesa. Querem repetir o processo quelevou à exaustão a antiga União Soviética. Dado que Estados Unidos e Rússiaestão em virtual paridade nuclear, a solução é levar a Rússia à capitulaçãoatravés de uma guerra convencional, não em território russo, que arriscaria umaguerra nuclear, mas no território de um terceiro país. Nada melhor, pois, que aUcrânia.
O objetivo dos neoconservadores é tentar repetir umaestratégia que, embora tendo dado certo na liquidação da União Soviética, nãoliquidou o Estado russo que estava em seu coração. O Estado socialistadesmoronou, mas a nação russa, mesmo ferida, continuou de pé. Putin tratou derecuperá-la por inteiro colocando-a na condição de um estorvo nuclear quelimita a vontade de poder ilimitada de Washington. A intenção norte-americanade atacar o governo sírio esbarrou efetivamente no veto russo e chinês. Isso,claramente, expôs a impossibilidade prática do exercício de um poder hegemônicona era nuclear partilhada. Transformado num boneco operado pelosneoconservadores, Obama resolveu “estrangular” a Rússia com embargoseconômicos.
Recordemos os passos que levaram à extinção da UniãoSoviética a fim de examinarmos os paralelos atuais. Em meados dos anos 70, foirefundada em Washington por influência do então diretor da CIA, George Bushpai, a ONG denominada “Comitee on the present danger”, ou Comitê para o PerigoPresente (CPD). Tinha como principal objetivo estatutário “levar a UniãoSoviética à rendição, se necessário por meios militares”. Do Comitê faziamparte 60 personalidades notáveis do círculo conservador norte-americano, sendoque o futuro Presidente Ronald Reagan filiou-se à ela pouco antes de eleger-seem 1979. Como Presidente, levou a posições de alto destaque no Departamento deDefesa, no Departamento de Estado e no Conselho de Segurança Nacional 33integrantes do Comitê.
Em 1985, quando estive na Alemanha para cobrir a reunião dosSete Grandes, andava por lá o chefe do Conselho de Segurança Nacional dos EUA,Richard Perle, membro do CPD, fazendo conferências sobre o conceito subjacenteao programa de escudo nuclear, então conhecido como Guerra nas Estrelas, que sebaseava no princípio de “guerra nuclear protegida”. Perguntei aos alemães o queachavam daquilo, pois a guerra nuclear “protegida” no contexto de Guerra nasEstrelas implicava a proteção nuclear do território norte-americano, mas não doeuropeu. Os alemães com quem conversei estavam perplexos. Imagino que estejamperplexos de novo com a marcha forçada pela guerra em território da Ucrânia,que os expõe diretamente às forças militares russas convencionais em seupróprio território.
É importante assinalar que não se tratava apenas deretórica. Diretivas presidenciais de Reagan, na virada do primeiro para osegundo mandato, introduziram mudanças cruciais nos programas de computador quepõem em posição de ataque os três sistemas estratégicos baseados em terra, mare ar das forças nucleares norte-americanas. Através de vazamentos de imprensa,soube-se de mudanças fundamentais noSIOP (Single Integrated Operational Program, ou Programa Operacional IntegradoÚnico), a parafernália eletrônica capaz de desencadear uma guerra nuclearcontra a então União Soviética a partir do teatro europeu.
A principal alteração no SIOP, de acordo com os fragmentosde diretivas presidenciais secretas, recolhidos e reconstituídos por um cientista canadense, F. Knelman (em“America, God and the Bomb”), consistiu em recuar para oito minutos, peloprincípio do prêmio por resposta rápida, o início de um ataque nuclear total àUnião Soviética a partir do primeiro alarme. Não se tratava de uma questãoacadêmica. Como um hipotético míssil soviético em cruzeiro levaria 36 minutospara mergulhar em território nacional norte-americano (trata-se de míssildisparado de terra: não se menciona a frota indetectável de submarinosnucleares, por expediente elusivo de convencimento), o programa Guerra nasEstrelas só se justifica se houver uma capacidade efetiva de interceptá-lo nomeio da trajetória, isto é, no mínimo 18 minutos depois do disparo.
O mesmo tempo é o que levaria um míssil americano disparadode terra para alcançar o míssil hostil na estratosfera. Entretanto, serianecessário um sistema de detecção instantânea do início do ataque. Paraqualquer efeito prático, não há possibilidade de alcançar o míssil antes quecruze o ponto médio da trajetória, a não ser de uma base em órbita. O programaGuerra nas Estrelas pretendia pôr bases em órbita, mas até lá seria necessáriocontar com a boa vontade dos estrategistas soviéticos para não atacaremprimeiro. Por isso reduziram o tempo de resposta do SIOP a oito minutos, peloque ficou limitado a um nível de redundância o processo de checagem paraconfirmar se um disparo captado na tela de controle eletrônico era um disparoreal. Com isso ficamos todos expostos à possibilidade de uma guerra nuclearcasual na medida em que o SIOP reagiria automaticamente a uma checagem erradasem tempo de consulta para resposta ao falso ataque do Presidente da República.
O primeiro passo para implementar Guerra nas Estrelas eraignorar o tratado SALT II, que vedava a construção de sistemas antibalísticospor parte de EUA e União Soviética. A lógica do SALT II, jamais aprovado peloSenado norte-americano mas até então respeitado pelo Executivo, era simples: adissuasão nuclear só se efetiva na base da autodestruição assegurada por queminiciar uma guerra nuclear. Se um dos lados conseguir construir um sistemaoperacional que efetivamente proteja seu território de um contra-ataquenuclear, ele estará livre para desencadear um primeiro ataque sem medo deretaliação. Cientistas de todo mundo, inclusive americanos, questionaram asbases técnicas de Guerra nas Estrelas, mas Reagan, a fim de esgotar a UniãoSoviética numa corrida tecnológica para construir seu próprio escudo, levouGorbachev a uma posição insustentável por falta de condições econômicas etécnicas para isso.
Foi a combinação de pressão tecnológica, econômica epolítica norte-americana que levou a União Soviética à autodestruição. É estemesmo caminho que está sendo seguido agora para levar a Rússia à exaustãoeconômica e à rendição política. Não se trata de teoria conspiratória. Osnorte-americanos, conscientes de sua superioridade militar e econômica, nuncaescondem suas reais intenções. Seus movimentos são explícitos e claramenteapresentados em documentos estratégicos públicos. Assim, eis como a intenção deeliminar qualquer possibilidade de “um novo rival” era colocada em 1992,imediatamente depois da derrota da União Soviética, pelo neoconservador PaulWolfowitz, do CPD, então Subsecretário da Defesa, no Manual de Planejamento deDefesa:
“Nosso primeiro objetivo é prevenir a re-emergência de umnovo rival, seja no território da antiga União Soviética seja em outro lugar,que coloque uma ameaça do tipo que foi colocado pela antiga União Soviética.Isso é uma consideração dominante sublinhando a nova estratégia de defesaregional e requer que previnamos qualquer tentativa de um poder hostil dedominar uma região cujos recursos poderiam, sob controle consolidado, ser suficientepara gerar poder global”.
Essa linha estratégica está sendo trilhada religiosamente nosentido de evitar que a Rússia seja um embaraço para a hegemonia militarabsoluta norte-americana, contornando a realidade elidida da virtual paridadenuclear. O SALT II foi revogado, unilateralmente, pelos EUA. Eles se recusam,por outro lado, a fazer um tratado de desmilitarização do espaço. Assim, é necessário recuar à geopolíticaanterior à Guerra Fria para entender os movimentos americanos. De fato, há umadécada e meia a possibilidade real de uma guerra na Ucrânia está sendopreparada metodicamente pela OTAN, que agora mesmo acaba de decidir aumentar ocomprometimento de orçamento militar de seus membros (2% do PIB) por pressãoamericana. Desde 1999 que a Organização avança para o Leste. Naquele ano,incluiu a República Checa, a Hungria e a Polônia. Uma segunda expansão se deuem 2004, incluindo Bulgária, Estônia, Latvia, Lituânia, România, Eslováquia eEslovênia. Com isso, quase metade dospaíses atualmente membros da OTAN foram incorporados, rumo ao Leste, depois dofim da URSS. Paralelamente expandia-se para Leste a União Europeia, cujo últimomovimento seria a tentativa de tomada de posse da Ucrânia. E só não houve aefetiva incorporação da Ucrânia e da Geórgia, formalmente sinalizada na cúpulade Bucareste em 2008, porque dessa vez Putin reagiu pela força, pois setratava, a seu ver, de colocar uma fortaleza militar hostil no quintal de seupaís.
O cerco militar à Rússia segue uma tríplice estratégia:alargamento da OTAN, expansão da União Europeia e promoção da “democracia”,obviamente desconsiderando o risco de uma guerra aberta. Diante do baileestratégico que foi a absorção da Crimeia pela Rússia, com apoio esmagador dapopulação da península, os Estados Unidos se movem na direção da guerra atravésinicialmente de sanções econômicas, a partir de uma posição forte,recém-conquistada, no campo da energia. Contudo, não nos iludamos. Uma guerraconvencional seria de alto interesse norte-americano, desde que ela pudesseesgotar a capacidade militar e econômica russa sem o risco de escalar para umaguerra nuclear. É com essa possibilidade que os neoconservadores contam parainiciar a guerra.
Sabemos, por outro lado, pela experiência histórica, que osEstados Unidos não se preocupam muito em como acabar com guerras. Para elestrata-se de um jogo estratégico para assegurar a afirmação da hegemoniamundial. Por isso, no momento, a única força capaz de parar a máquina de guerraamericana é o povo dos Estados Unidos, tocado pela consciência de solidariedadecom os bilhões de inocentes do mundo, e eles próprios, que sofreriam asconsequência de uma guerra proto-nuclear. É necessário que os inocentes rompamcom a passividade, falem e votem. De fato, os Estados Unidos podem esgotar asforças econômicas e militares dos russos numa guerra em território de terceiro.Mas o que acontece com uma potência derrotada, humilhada, sitiada, e nãoobstante de posse de um imenso arsenal nuclear?
Aos que consideram essa análise exagerada peço que leiam“Foreign Affairs”, uma das mais prestigiosas revistas do estabelecimentonorte-americano, em detalhados e esclarecedores artigos sobre a “crise” naUcrânia, na edição de setembro último. Um deles diz claramente: “a crise naUcrânia é nossa culpa”, referindo-se aos Estados Unidos. No corpo da matériavem a narrativa da marcha da OTAN para Leste, em confronto direto comentendimentos anteriores com os russos e sob constantes protestos destes. Alitambém se encontra o relato do caos planejado pelo Departamento de Estado eONGs patrocinadas pelo Governo norte-americano para derrubar o governo legítimopró-russo de Kiev, colocando em seu lugar um governo que tem pelo menos quatromembros proeminentes neofacistas.
Ainda em termos de medidas provocativas contra a Rússia,destaca-se a monstruosa derrubada do avião comercial MH 17 sobre o Leste daUcrânia, um típico atentado terrorista que os Estados Unidos pretenderamatribuir a forças pró-russas. Falso. O avião, de que já não se fala mais muitosintomaticamente, foi derrubado por forças do governo de Kiev, conformedenunciou o presidente russo Vladmir Putin, numa reunião internacional, combase em investigações independentes, e com praticamente nula repercussão noOcidente.
O ânimo dos neoconservadores norte-americanos para o confronto global com os russos, a partir daeconomia, ganhou força com a revolução energética representada pela exploraçãode gás de xisto nos Estados Unidos através de uma das mais criminosas tecnologiasdo ponto de vista ambiental, o fracting. O sucesso comercial do empreendimento,com rápida expansão de produção de gás e petróleo de xisto, possibilitou atacaro principal pilar da economia russa, grande produtora e exportadora de petróleoe gás, e, simultaneamente, “tranquilizar” os europeus quanto à possibilidade decessação de suprimento de gás russo à Europa, o qual seria substituído pelonorte-americano.
Não se sabe se os sauditas entraram nesse jogo por razõesgeopolíticas, evitando reduzir a produção de petróleo para prejudicar osrussos, ou por suas próprias razões de tentar inviabilizar economicamente aprodução de hidrocarbonetos por fracting. O fato é que também grandes empresasnorte-americanas, que investiram pesadamente no petróleo e gás de xisto, estãotendo pesados prejuízos com a redução do preço do petróleo, que agrada mesmo sóao consumidor. Por outro lado, as promessas supostamente infinitas dofracting se revelaram surpreendentemente limitadas nos últimos meses: em Monterey, na Califórnia, reservas depetróleo de xisto antes avaliadas em 13,7 bilhões de barris foram reavaliadasoficialmente para 600 milhões, ou 96% menos. Além disso, a opinião públicanorte-americana começa a ser mover contra o fracting: segundo uma pesquisa de opiniãorecente, em 2008, 48% a 38% dos norte-americanos apoiavam essa tecnologia; emnovembro último, 47% a 41% se manifestaram contra. Isso certamente reflete acomprovação inequívoca da destruição ambiental, sobretudo de aquíferos, queessa tecnologia suja provoca no meio ambiente de forma irreversível.
Enquanto o mercado de hidrocarbonetos não sofrer novareviravolta, refletindo o fracasso da Califórnia, a Rússia, sem dúvida, serápenalizada pela estratégia norte-americana de seu estrangulamento econômico.Putin, com sua frieza característica, ponderou que a Rússia é um paísautossuficiente e, de qualquer modo, tem meios de retaliação – imaginandocertamente um embargo na exportação de gás para a Europa. Uma importante fichapara a Rússia é certamente a China, que já lhe garantiu um contrato defornecimento de gás por 20 anos no montante de 400 bilhões de dólares, e quetem se alinhado com ela em questões geopolíticas, como no caso da Síria.Contudo, estamos claramente diante de uma escalada.
O novo passo estimulado pelos EUA foi a recente decisão doParlamento da Ucrânia de renegar sua neutralidade. Note-se que o próprioKissinger, num artigo recente, assinalou que a solução definitiva para a criseucraniana, de uma forma aceitável pela Rússia, seria transformar a Ucrânia numpaís neutro entre a União Europeia/OTAN e a Rússia, como aconteceu com aFinlândia na Guerra Fria. Contudo, Kissinger é um velho conservador lúcido, nãoum neoconservador alucinado. Os EUA, sob controle destes, indicam que não aceitarãoperder mais essa oportunidade de guerra. Tudo indica que forçarão a Rússia aaceitá-la. Com a integração da Ucrânia na OTAN, numa iniciativa indiferente aosmilhões de russos e russófilos no Leste do país, a aliança militar ocidentalestaria nas costas da Rússia, o que significa ameaça direta a seu território. Omínimo que a Rússia buscaria seria retalhar a Ucrânia com apoio local, o que deuma certa forma foi ensaiado na Crimeia. Seria então uma guerra global emterritório ucraniano?
E nós, que temos a ver com tudo isso? Os inocentes entre nósacham que os neoconservadores norte-americanos veem com muita naturalidadenossa aproximação, via BRICS, com sua arqui-inimiga Rússia. Acreditam que agravação das conversas da Presidenta foi mero divertimento. Acham que astentativas de desestabilização do legítimo Governo brasileiro atual, assim comoo reeleito, são fenômenos exclusivamente internos, ou resultantes dos impulsoséticos de alguns tribunais. Pelo fato de termos passado à margem de guerras, eestarmos no centro de um continente peculiarmente pacífico, nos acostumamos a não pensar geopoliticamente –mesmo porque, na era nuclear, a geopolítica devia estar definitivamente fora demoda. Contudo, querendo ou não, estamos no jogo. Se o preço do petróleo cairabaixo de 40 dólares o barril, a exploração do pré-sal estará inviabilizada. Seos Estados Unidos fizeram a guerra contra a Rússia em território ucraniano,teremos de fazer difíceis escolhas.
José Carlos de Assis - Economista, doutor pela Coppe/UFRJ,professor de Economia Internacional da UEPB.