A ação policial comandada pelo governador do Paraná, queferiu 200 professores em protesto de rua em Curitiba, na semana passada, veio,no entanto, lançar uma luz sobre os reais propósitos da arremetida midiática,que quase derruba o atual governo brasileiro. Lembre-se que, num movimento paralelo, a Câmara aprovava, quase na mesmasemana, o projeto da terceirização, reduzindo conquistas sociais, com diminuiçãode salários, eliminação de garantias trabalhistas e inviabilizando os concursospúblicos. As duas ações, aparentemente independentes, mas interligadas dentrodo plano maior da reinstauração do neoliberalismo, o mesmo que se abateu sobrenós por mais de 20 anos. Seu objetivo é, em última análise, transplantar paracá as políticas recessivas hoje reinantes na Europa, que já quebraram a Grécia,Espanha e Itália. Daqui a pouco vão querer dar em cima de nosso 13o. salário,reduzir pensões e impor o congelamento salarial, como já se escuta noscorredores do Congresso, pois, como se observa, a ordem é de maximizar oslucros dos banqueiros e multinacionais, nem que a à custa do sangue dotrabalhador
Ainda bem que isso está vindo à tona, porque, assim, o país,não de todo refeito do torpor das pirotecnias de rua e de mídia, vai se dandoconta da trama por trás do denuncismo que se apossou do noticiário nos últimos15 meses. Mostra igualmente que eles não vieram para brincar e que estãodispostos a trazer de volta a ditadura, não a de mentirinha, mas a verdadeira,se preciso for. Nada mais sintomático, neste aspecto, do que a repressão deBeto Richa. O passar do tempo serviu igualmente para demonstrar que a Petrobrásnão está assim tão mal, tendo, pelo contrário, voltado a puxar as ações dabolsa, e que os envolvidos nos seus escândalos não eram só do PT, mas,rigorosamente, de todos os partidos, inclusive os da oposição, à frente o PSDBe o PMDB dissidente. A diferença é que os jornais só noticiavam e, em alguns casos,com grosseiras manipulações, os políticos petistas, estes sem o mínimo direitode defesa, tal qual fizeram no passado contra Leonel Brizola.
É importante que observemos que tanto o atual governo deRicha, como o de Aécio Neves, em Minas, entre 2002 e 2010, constituem, com seu“choque de gestão”, o jeito tucano de governar. Na verdade, esses dois meninosmimados da mídia corporativa, aprofundam, com sua perseguição a professores e funcionários públicos, a experiêncianeoliberal do octênio de Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), no planofederal, quando o presidente eleito pelo PSDB, não só entregou nossas grandesestatais a empresários amigos e associados, como também fez o trabalhadoramargar oito anos de congelamento salarial, enquanto o desemprego assumiaproporções alarmantes, e nosso florescente projeto de industrialização ia parao brejo.
A estratégia real era baixar um pacotaço com a eleição AécioNeves, em 2014, que as elites consideravam como favas contadas, mas quefracassou com a decisão do eleitorado de optar pela manutenção de DilmaRousseff como presidente da República, por mais quatro anos. Era tão evidenteeste plano diabólico, que Aécio tinha nomeado por antecipação seu ministro daFazenda, Armínio Fraga. E quem é Armínio Fraga? É, um brasileiro-americano, comresidências no Rio e em Nova York e tido como dos principais agentes de GeorgeSoros, um dos maiores especuladores internacionais e cérebro privilegiado daofensiva de desmonte dos pobres estados nacionais. Para cúmulo da coincidência,o mesmo George Soros veio ao Brasil, na semana passada. Para jantar com FHC,hoje, aos 83 anos, chefe dos tucanos e grande referência internacional daprivataria. Para os que não se recordam, Armínio Fraga tinha sido presidente doBanco Central do mesmo FHC, trazendo evidentemente seu aporte técnico para odesmantelo de nosso aparato estatal
Se mirarmos os exemplos recentes do Peru e do México, onde aretomada privatista já engoliu as empresas de petróleo e os bancos oficiais,com nova explosão do desemprego, numa incipiente blitz grieg neoliberal emterritório latino-americano, podemos ter ideia de como também seriam aquiabocanhados a Petrobrás, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, no caso daeleição de Aécio ou de qualquer candidato bafejado pelas ondas ensurdecedorasdos meios de comunicação. Mas se perderam o Palácio do Planalto, o esquemagolpista se apoderou do quorum qualificado da Câmara e do Senado, a partir deonde começaram a agir, forçando-os a aprovar leis restritivas ao trabalhador,os direitos individuais e à soberania nacional, como bem demonstra o projeto daterceirização, já aprovado pela Câmara, e em ponto de bala para tramitar noSenado.
Paralelammente, o projeto da terceirização, certamente, vaiabrir caminho, se não for sustado a tempo no Senado ou vetado pela presidenta,para novas investidas do grande capital. Deus queira que não cheguemos aosníveis da Espanha, onde, com essa mesma toada de “acabar com a corrupção” e“flexibilizar o mercado de trabalho”, reduziu salários e eliminou benefíciossociais do antigo wellfare state e ainda tomou as casas de quem não pôde pagar.O desemprego nesta potência europeia, situa-se há mais de cinco anos numa médiade 25% (no Brasil, país emergente, situa-se em 6,2), sendo que, entre osjovens, beira os 50%, e isso depois de três anos de uma reforma trabalhistaflexibilizadora, baixada por decreto-lei.
Como revela relatório da Organização Internacional doTrabalho, o Brasil, ao lado da Argentina, foi o país que mais reduziu adesigualdade salarial no mundo nos últimos dez anos, reduzindo a desigualdadeem 72%. O mesmo relatório (o Global Report 2014/15 on Wages and IncomeInequality) sustenta que aconteceu o contrário nas economias desenvolvidas. Ondehouve aumento da desigualdade social e da perda de empregos. É isso tudo quequer eliminar os democratas com sua interminável obsessão em fazer o Brasil a voltarà condição de país periférico, do qual se levantou a partir de 2003,acompanhando a tendência autonômica de outros países progressistas da região,que a mídia não cansa de chamar de ditaduras, mas que realizam eleições comcrescente participação popular.
Por FC Leite Filho.