A reativação da ERT e a recontratação dos seus 2.600funcionários são muito simbólicas não só para a Grécia, como também para oresto do mundo, hoje quase todo submetido à ditadura mercado-midiática. Estavarre da concorrência qualquer veleidade de instituição pública na área dacomunicação para beneficiar verdadeiros mamutes comunicacionais que controlam ainformação e entorpece as consciências.
Ao colocá-la fora do ar, a zero hora de de 12 de junho de2013, o governo pró-Troika de Antónis Samarás, que também congelou e diminuiusalários e aposentadorias de toda a população, achou que tivesse exterminadopara sempre uma das experiências mais bem-sucedidas da TV europeia, desde seusurgimento, em 1938.
Vejamos quem era o autor do decreto: Samarás, um político dedireita escolhido a dedo como premiê, numa eleição viciada, com muita pressãoeconômica, em 2012. Ele sucedeu no cargo a Lukas Papadimos, um ex-executivo daGoldman Sachs e do BCE, imposto ao Parlamento grego pela Troika, sem qualquereleição, nas mesmas bases da indicação de Mário Monti, outro executivo daGoldman, que substituiu, também sem eleição, a Silvio Berlusconi na Itália, no mesmoano. Papadimos passou mais de um ano no cargo para fazer o trabalho sujo,depois legitimado por Antónis Samarás.
Na verdade, o decreto de fechamento da ERT chocou o mundopelo rudeza do golpe na comunicação democrática e na cultura grega. Mas houvereação: seus funcionários demitidos se organizaram em cooperativa e arecolocaram no ar, primeiro através da internet, e, em seguida, pelo sistemaanalógico, ainda que em condições precárias porque quase clandestinas.
A luta desses bravos jornalistas, artistas, músicos etécnicos acabou constituindo a principal bandeira de campanha do premiêTsipras, que fez questão de cumpri-la numa grande festa no último dia 12 dejunho, quando acabava de vir de Bruxelas, onde sofrera novas pressões eultimatos para impor mais sacrifício a seus compatriotas, ao longo dasintermináveis reuniões com os representantes da Troika sobre a dívida grega.
A história do fechamento da ERP é também a história de umestupro cultural, muito ao gosto dos mercados para impingir hábitos e atitudesalienígenas que nada têm a ver com a história ou o sentimento do povo helênico,mas que rendem lucros fabulosos à indústria do entretenimento capitaneada porHollywood. É que a ERP era também constituída, além de seus quatro canais de TVe quatro de rádio, de uma orquestra sinfônica e um coral (daí o númeroexpressivo do pessoal, que foi muito usado para atribuir um suposto inchaço doórgão estatal).
O compromisso de Tsipras, o governante que ousou enfrentar opoder mundial da economia, concentrado na Troika, ao convocar um referendo paraque o povo decidisse se aceita ou não as suas imposições para conceder novoempréstimo ao país, é também de restabelecer os outros órgãos da ERP. O novolíder, que vai completar 41 anos no ida 28 de julho, é presidente do partido deesquerda Synaspismos (SYN), lidera da Coligação da Esquerda (Syrisa), eleita em25 de janeiro, com cerca de 70% dos votos, com o compromisso de construir ummodelo econômico e social menos dependente e mais inclusivo na Grécia.
Ele forma, juntamente com Pablo Iglesias, líder do partidoespanhol Podemos, que acaba de obter considerável sucesso nas eleiçõesmunicipais de maio e se prepara para pleitear o poder nacional no pleito de dedezembro, a nova geração de líderes anti-neoliberais. Eles têm como inspiraçãoos modelos nacionais de desenvolvimento com inclusão de Hugo Chávez, Kirchner,Evo Morales e Lula, na América Latina.
Ao tomar posse como premiê, em 26 de janeiro, Tsiprasanunciou que a solução para a crise da dívida externa da Grécia poderia estarnuma adaptação da tática adotada pelo ex-presidente da Argentina, NéstorKirchner, em 2003. Na época, quando a Argentina vivia situação semelhante à daGrécia, com o chamado corralito, Kirchner reuniu os credores, muitos deles damesma Troika, propondo-lhes a reestruturação da dívida. Alertou, porém, que opaís, que dois anos antes havia quebrado e se declarado impossibilitado decumprir seus compromissos, só podia pagar 25% do que devia. Os credores nãotiveram outra alternativa que atender às condições impostas por Kirchner. Apartir daí, a Argentina saiu do fundo do poço e iniciou um novo ciclo dedesenvolvimento e soberania, que fez baixar o índice de desemprego de 25% para7%.
Tsipras, porém, encontrou forte resistência dos credores aseu plano. Eles queriam, na realidade, novas medidas para extorquir os jácombalidos salários dos gregos, com diminuição das aposentadorias, aumento doimposto de valor agregado de 13% para 23% e um corte monumental nos gastos einvestimentos públicos.
Convencidos de que poderiam dobrar o jovem e operoso líder,da mesma forma que tinham feito com o líder do Pasok (social-democracia),George Papamdreu, obrigado a desconvocar um referendo da mesma natureza, em2009, os credores, ou seja, a Troika, também queriam evitar que uma rebeldia daGrécia pudesse ter um efeito contagioso na Espanha e na Itália, vítimas dasmesmas políticas de arrocho e com um índice de desemprego e recessão à beira dointolerável.
Tsipras não se deixou envolver nem pelas ameaças nem pelocortejo que lhe fizeram nestes meses de negociação e, numa política de fatoconsumado, convocou de surpresa o referendo para o próximo domingo, cinco dejulho. Com isso, afrontou todo tipo de risco que sua decisão poderia implicar:corrida aos bancos, falta de dinheiro e protestos nas ruas, logicamentealimentados por uma direita ainda poderosa e disposta a tudo para reduzir a póa recém experiência nacionalista do Syriza.
Uma articulada política anti-crise, jamais imaginada porparte de uma liderança quase inexperiente, evitava até o final da redação destepost, qualquer distúrbio capaz de comprometer a paz interna e a lisura dopróximo referendo. Medidas inteligentes como o fechamento dos bancos em umasemana, os quais só puderam abrir para pagamento aos aposentados e o limitemáximo de 60 euros nos caixas eletrônicos, impediram a quebra do país, muitasvezes insinuadas e até estimuladas pela mídia corporativa, sempre a serviço deseus patrões da Troika.
Por FC Leite Filho.