Abadás dos(as) grandes artistas que outrora esgotavam suas vendas em novembro ou dezembro, hoje estão encalhados.
A crise no país e no mundo influencia, mas a crise no carnaval de Salvador não é a que se abateu em 2015 em todo o país e sim uma crise que vem crescendo há muito tempo sob a égide do grande empresariado do entretenimento em conluio com os poderes público municipal e estadual e parte da mídia.
O modelo de carnaval imposto em Salvador e bem sucedido por duas décadas (1980,1990) está esgotado. Abadás, cordas, cordeiros, privatização do espaço público, das ruas, praças, etc. É esta lógica que algum tempo já dava sinais de cansaço. Contudo, isto não foi suficiente para o empresariado local que, ao contrário do que já mostrava tais sinais, conseguiram radicalizar naquilo que mais afasta o nosso carnaval do seu caráter popular, espontâneo e democrático, apostando na segregação da camarotização da nossa maior manifestação cultural. O hedonismo e a miopia dos que sempre lucraram foi um dos fatores fundamentais pra a crise de identidade que estamos passando e isso precisa ser dito tambem.
"Tomara que esta ano eu encontre de novo
no meio da rua, no meio do povo
Mortalha encharcada de cerveja até o pé
e a boca lambuzada de acarajé..."
Walter Queiroz
Dos versos de Walter Queiroz que remetem à mistura e ao encontro até as músicas atuais de ostentação que falam de camarotes, uísques, carrões, status e segregações diversas, existiu uma progressiva e corrosiva construção de um carnaval em que o povo é secundário. Todos os símbolos contidos na festa tem hoje (mais do que nunca) a etiqueta das diferenças e isso não foi por acaso.
Ainda sim, a festa passa hoje por transformações mesmo com o cerco do poder público às manifestações espontâneas alternativas ao carnaval da indústria.
O empresariado tem sua importância, mas precisa entender para além do lucro de um ano de carnaval; maturidade é para poucos...
Fernando Monteiro.