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A calçada

A calçada

03/06/2016 19h13 Atualizada há 5 anos atrás
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A calçada
As noites quentes do sertãobaiano no final dos anos 70, todas as noites nos juntávamos na calçada da casados meus pais. Era em torno da minha mãe que nos reuníamos naqueles diasquentes de verão. Ela forrava com esteiras ou lonas o local onde ficávamossentados ou deitados. Muitas vezes eu ficava com a minha cabeça no colo dela,ouvindo histórias de reis, príncipes e princesas, que só ela sabia contar. E iaa mundos que só os pensamentos nos consegue levar.

Muitos dos filhos dosvizinhos também vinham escutar aquelas histórias. E era assim que passamos asnossas noites. Quando ela não podia, por força do trabalho nos atender nospedidos, nós arrumávamos brincadeiras e todos participávamos. Era de rouba abandeira. Colocávamos dois pedaços de paus, um em cada extremidade da ruaencima de um monte de terra, íamos tirando aos poucos, até o mastro cair. Era omomento de pegar e correr antes de ser espancado pelo time contrário. Era umafesta! Ou de garrafão. Fazíamos um quadrado bem grande com duas entradas nosentido horizontal. Uma em cada lado. Uma pessoal tinha que alcançar outra etocar. Dentro se podia ficar com os dois pés. Fora, com um pé só. Se pego, aporrada era grande. E éramos felizes assim.

Minha mãe contava que um Reitinha uma linda filha. Ela foi transformada, por inveja, em uma bela gaivota. Omago, um dia ao encontrar com ela no corredor do palácio, colocou um alfinete,bem pequenininho em sua cabeça, a enfeitiçando durante muito tempo. Ele pareciaquerer acariciar, mas o intuito era a transformar em algo que pudesse serabatido por qualquer pessoa.

Descoberto, o feiticeiro foipreso e levado a masmorra. E lá está até hoje.

Avisado do acontecido o rei saiua procura de sua filha pelo palácio. Não a encontrando, ele então autorizou quese fizessem buscar por todo o reino. E nada disso teve êxito. Foram alguns dosgarotos que avistaram aquele ave e saíram em perseguição daquela linda gaivota.Eles não sabiam que era a bela princesa que voava pelos jardins do palácio e seescondia de todos entre as arvores mais próximas. E por isso a importunavam.

Se passaram muitos dias. E orei já desgostoso da vida, mandou que fosse publicado em todas as aldeias umcartaz oferecendo uma recompensa para quem soubesse do paradeiro de sua filha.E em uma tarde de chuva, um jovem lavrador ia passando pela taberna de suaaldeia, quando viu aquele cartaz com o desenho do rosto da princesa. Ele oarrancou e foi direto para sua casa. Lá chegando, falou para sua mãe que iriaprocurar aquela jovem. Ele não queria o dinheiro, e sim, encontrar tão belorosto. Sua mãe riu, e fez pouco caso. O jovem era desleixado, tinha a barbasempre por fazer, nunca ligou para as roupas que vestia, muito menos seimportou com riquezas. Ela acreditava que, ele não teria a menor condição de aoencontrar, e se por acaso viesse a acontecer, o que ela definitivamente nãoacreditava, seria improvável que conseguisse reverter o feitiço.

De vários lugares vierampríncipes em busca de encontrar aquela gaivota e de poder reverter o feitiço. Acada dia chegavam ricos e mercadores em busca da gaivota. Uns traziam gaiolas,outros traziam alçapões, outros espalhavam comidas pelos cantos do reino, masnada da bela gaivota aparecer.

Ao longe, a princesa nocorpo de gaivota, via cada movimento que era feito por tantos ricos. Mas nem umdeles a chamava a atenção. Ela tinha medo que depois de aprisionada, nãopudesse mais voar e viver livre, como era no palácio de seu pai. A liberdadeera, para ela, como o oxigênio que a fazia viver. Estar aprisionada, seriadecretar a sua morte.

Um lindo rei, viu de longeaquele corpo branco em uma arvore perto do lago. Ele então se aproximoudevagarinho, e falou com a gaivota.

- Eu não estou aqui para lhemachucar. Vim porque seu pai prometeu que quem conseguisse reverter o feitiço,a teria como esposa. E de tão formosa que és, eu me aventurei pelas terrasáridas do deserto, em busca desse lindo rosto.

A gaivota ouviu distante aspalavras do príncipe e teve a certeza de que ele não era a pessoa certa paramudar o que lhe acontecerá. O feitiço só se reverteria, se um verdadeiro amor aencontrasse. Não era a riqueza, não eram os presentes, não era um belopríncipe, não era algo assim que mudaria. Ela sabia que, além de tudo o que lhepudesse proporcionar, o escolhido deveria ter o mais sublime sentimento de amorem seu peito. E naqueles ela ainda não encontrará. Por isso, permaneceriadistante de todos. Vivendo isolada, com o medo se ser aprisionada.

Na tarde daquele domingo,apareceu no palácio José. Era aquele humilde servo do rei. Estava cansado daviagem que fizera. Foi direto para a mesa onde estava servida a comida. Sefartou de tudo o que pode. Até não mais aguentar comer. Estava satisfeito. Epensava dali não mais sair. Tinha comida farta, até que a princesa pudesse serencontrada. Passados três dias, sem que do palácio se ausentasse. O rei,informado da situação, foi ao seu encontro. Lá chegando, viu alguém malvestido, com uma maça na mão direita, sentado em um banco na cabeceira daquelamesa grande.

- de onde vem Príncipe? Quereino deixaste para trás para vir em busca de salvar a minha amada filha? Queriquezas tem para oferecer-lhe, caso consigas a encontrar e traze-la de voltapara casa?

José, parou a mordida namaça que estava dando. Ficou de joelhos e respondeu ao rei.

- Bondoso rei. Eu não tenhonenhum reinado. Terras só quem tem é Vossa Alteza, e eu, junto com minha mãecultivamos feijão. Todo fim de safra, lá passa o cobrador de impostos e nóspagamos o que lhe devemos. Eu sou um plebeu, que após ver o cartaz em minhaaldeia, resolvi vir, também, procurar pela princesa.

O rei, não gostou daquelasituação e mandou que sua guarda o retirasse do palácio. José foi colocado parafora, enquanto se ouvia risos e gargalhadas dentro do salão. Já fora, ele olhoupara o rei que acompanhará aquela cena e disse:

- Meu rei, no cartaz nãofalava que eu teria que ser príncipe, ter terras ou riquezas. E de tão lindoque vi a princesa, tive a certeza de que meu lugar era aqui para procura-la. Doseu reino não quero nada. De suas riquezas, não me apossarei de um grão deouro. Mas tenha a certeza, meu rei, se a sua filha eu encontrar, a trarei devolta para o senhor.

Com aquelas palavras, o reisentiu vergonha em seu rosto. Olhou para o chão e se virou de costas, entrandono salão. Lá se encontravam ricos, nobres e muito luxo. Mas o rei viu naquelehomem, algo que dentro do palácio não existia.

José, olhou para o palácioque antes entrará e que agora era expulso. Buscou um abrigo para aquela noite edecidiu que pela manhã, partiria em busca da gaivota.

Ao acordar, bebeu um copo deagua do pote da estalagem. Encontrou com alguns garotos que brincavam na rua.

- Vocês sabem onde possoencontrar a princesa em forma de gaivota?

- Claro que sabemos.Responde o maiorzinho.

- Podem me indicar onde aencontro? Hoje quero falar com ela.

Os garotos saíram com ele eo levaram até os fundos do palácio. Era de lá que a gaivota todos os diasrecebia comida para se alimentar.

- Vamos espera, que elaaparece já! Disse o menino.

Eles ficaram ali por mais deuma hora. E de repente, como em um passe de mágica, aquela linda gaivota sentouna grande arvore do jardim. Uma criada colocou uma grande bandeja com frutaspara aquela gaivota. Antes mesmo de a princesa voar em seu corpo de pássaro,José foi até a bandeja e pegou uma maça para comer. Ele estava desde a tarde dodia anterior sem se alimentar. A gaivota voou e o tentou acertar na cabeça. Elaestava tentando defender seu alimento.

José sorriu e perguntou:

- Princesa, não paradividirmos o alimento? Desde ontem que nada como e estou com muita fome em meuestomago.

A gaivota sentada no galhoda arvore ficou olhando aquele jovem se alimentar. Ele já ia pegando umalaranja, quando recebeu uma bicada na cabeça. Era a gaivota novamente adefender seu alimento. Ele ficou ali sentado. Olhando para ela, e ela olhandopara ele.

- Princesa, não me leve amal, mas como eu poderia lhe ajudar. Me diga como, que farei de grande agrado.Não quero nada do seu reino. Vim aqui porque a queria ver. Vi seu rosto nocartaz, e nunca vi tão lindo rosto. Nada espero do Rei, nem de sua riqueza. Sóquero ter o prazer, de um pia poder dizer, que vi o seu rosto tão lindo.

Como a gaivota não orespondeu. José se levantou e se afastou, para que ela pudesse se alimentar.

De longe ele a olhava.Quando ela terminou voou para distante. E ele retornou para perto do palácio.

No dia seguinte ele nãoprecisou mais da ajuda das crianças. Acordou e foi direto ao local onde eracolocado o alimento. Ficou distante olhando. Viu quando foi deixado. Foi até láe sentou perto. Ficou olhando para a comida. Não pegou nada dessa vez. Agaivota que chegará pouco antes ficou a olhar aquela sena. Não entendia comoele não teria pego nada. Ele levando e já ia embora. Foi quando sentiu o ventoem seu ombro. A gaivota senta no esquerdo. Passou sua cabeça no rosto de José.Ele sorriu. A pegou e sentou ao lado da bandeja. Cortou frutas e a alimentou nobico. Já farta, ao ver José vindo com mais alimento, a gaivota recusou. Era avez dele. Mas ele não quis se alimentar. Ela, com seu bico, empurrava oalimento para ele. Mas José não queria.

- Princesa, hoje quandosentei aqui, me lembrei de minha mãe, que está em casa sem alimentos parasaciar a sua fome. Não é justo que eu possa me fartar, enquanto ela sente fome.Não é justo que poucas pessoas possam ter muito para se alimentar, enquantomilhões passam fome em seu reino. Eu vim aqui para encontrar tão bela flor, masencontrei tamanha contradição. Voltarei para o meu canto. É lá onde eu devoficar.

Naquele instante, umalagrima rolou do olho da gaivota. Ela rosou sua cabeça novamente no rosto deJosé, que sentiu algo o incomodar. Ele a pegou, passou colocou-a no chão,passou sua mão com cuidado na cabeça da gaivota para sentir o que o espetava.Com os dedos procurou algo e encontrou um pequenino alfinete que a incomodavatanto. José o retirou, e viu surgir em sua frente uma linda mulher, como nuncavirá antes. A mais bela entre as belas. Mais linda do que ele tinha visto nocartaz. Os dois ficaram de pé. Ela o abraçou com carinho e o agradeceu. Beijouo seu rosto. Foi quando a serva, que vinha buscar a bandeja, a viu e gritou.

- A princesa está viva, Elavoltou.

Correram todos ao seuencontro. O rei a abraçou. Levou a para dentro do palácio a mandou que fossefeito uma grande festa para comemorar o seu retorno. José ficará fora dopalácio. No tumulto foi barrado de entrar. Como todos os plebeus, ficou de forada festa que o rei ordenará dá.

Já dentro do palácio, o reiperguntou a ela:

- Quem destes conseguiu revertero feitiço minha filha? Ela olhou para todos os lados e não viu aquele rosto quea ajudará.

- Nenhum desses meu pai!

O rei ficou confuso. Setodos os príncipes estavam ali, quem então seria o felizardo que teria a honrade casar com sua filha e juntarem os reinos.

- Meu pai, o príncipe queretirou o feitiço de mim. Que me trouxe de volta para casa novamente paraconviver com todos vocês, não tem nenhuma riqueza, não mora em palácios. Naverdade meu rei, ele tem fome, fome de comida, fome de liberdade, tem amor nocoração, como nunca visto antes em uma pessoa. O príncipe a quem o senhor iráconceder a minha mão, reponde pelo nome de José, e é morador de uma vila emnosso reino.

O rei, quase cai, mas seapoiou na cadeira do trono e ficou calado, sem saber o que dizer. Passadoaquele instante de surpresa.

- Que tragam o homem queterá a mão da minha filha.

Procuraram pelo palácio.Procuraram pela vila do palácio. E nada de encontrar José. Ele foi embora,assim como chegou ao palácio. Livre como uma gaivota a voar.

A princesa, chorou, pois nãoconseguiu rever o príncipe que ela viu a mais linda forma de amor em seucoração. Ela prometeu que um dia, o iria encontrar. Mesmo que todo o tempo domundo levasse, o seu amor, ela iria encontrar.

E foi assim que minha mãeterminava essa história. Todas as vezes que contava para aquele bando decrianças sentados na calçada da minha casa na Rua Duque de Caxias, em PauloAfonso, lá na Bahia.

Dimas Roque.
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