Todavia alguns pontos são inquestionáveis, e mesmo assimconceitos são deturpados junto a população. É o caso do uso frequente do termo“energia limpa”. Toda fonte energética ao ser convertida em outra forma produzalgum tipo de resíduo, emissão, contaminação, poluição, que afeta o meioambiente e as pessoas. Além de que as obras e instalações realizadas para oprocesso de geração, dentro do modelo de expansão vigente, e mesmo atransmissão da energia, provocam danos, expulsões, privações, prejuízos,destruições de vidas e de bens muitas vezes permanentes e irreversíveis.Portanto é falso e desaconselhável o uso deste termo. Meros interesseseconômicos da mídia corporativa, aliada das empresas tentam confundir quandoantepõem energia limpa versus energia suja.
Fato é que as chamadas fontes não renováveis – petróleo,gás natural, carvão e minérios radioativos são as principais responsáveis peloaquecimento global, pelas emissões que provocam, e consequentemente, com asmudanças climáticas que ocorrem no planeta. Evidentemente, este efeito éagravado de maneira substancial pelo modo de produção e consumo da atualcivilização. E aqui é ressaltado o papel nefasto do petróleo e seus derivadoscomo o inimigo número um do aquecimento global.
Por outro lado, as fontes renováveis de energia – sol,vento, água, biomassa são as que menos contribuem para as emissões de gases deefeito estufa, e consequentemente, para as mudanças climáticas. Mas ai tem umporém, e que foi muito bem registrado na referida matéria sobre os problemassocioambientais causados pela geração centralizada da energia eólica, e o quetudo indica também da energia solar fotovoltaica. O atual modelo de implantaçãoe expansão destas tecnologias é tão catastrófico do ponto de vistasocioambiental, como o do uso das fontes não renováveis. Neste caso a vantagemcomparativa inexiste. É o que ocorre atualmente no Nordeste brasileiro com adevastação do bioma Caatinga, e com as mudanças dos modos de vida infligidas àspopulações que se dedicavam a pesca, coleta de mariscos, e a agriculturafamiliar.
Há uma discussão sobre a questão das mega hidroelétricascom a construção das barragens. Alguns gestores públicos, membros da academia,técnicos e grupos empresariais, ainda insistem na defesa de grandes edestruidores empreendimentos, onde as desvantagens superam em muito asvantagens. Os deslocamentos de milhares de pessoas acarretam danosirreversíveis a estas populações, conforme constatações históricas. Por outrolado, é consenso que as hidroelétricas também emitem uma considerávelquantidade de GEE, principalmente o metano resultante da degradaçãomicrobiológica da matéria orgânica existente nos reservatórios. Todavia, osdefensores desta tecnologia, após terem que aceitar esta contastaçãocientífica, ainda tentam desqualificar aqueles que são contrários a construçãode mega hidroelétricas na região Amazônica, insistindo erroneamente em afirmarque são imprescindíveis.
Neste contexto não se pode esquecer que vivemos em umsistema capitalista, onde o lucro é o objetivo principal. E aí o vale tudo temimperado. Desde o afrouxamento da legislação ambiental para atender aosinteresses econômicos imediatos, a falta de fiscalização sobre taisempreendimentos, e os contratos draconiamos de arrendamento da terra. Em nomeda maximização do lucro, o meio ambiente e as pessoas acabam sendoprejudicadas, com o Estado se omitindo e muitas vezes incentivando práticas nãocondizentes com os discursos de proteção ambiental e de sustentabilidade.
Logo, os investimentos em fontes renováveis estãoorientados pela lógica capitalista, e são tratados como um negócio como outroqualquer, e muito rentável, onde o lucro e a justiça são incompatíveis. É o quetem atraído fundos de pensão de outros países, empresas multinacionais enacionais, grandes investidores particulares que encontraram no Brasil um filãopara os “negócios do vento e do sol”, aliados a uma legislação que mudaconforme seus interesses.
Como bem constatamos na história recente do país, o“capitalismo brasileiro” não convive com a democracia, com a justiça ambiental,com os direitos sociais. E é nesta lógica, em um país onde a informação écontrolada e manipulada, que os interessses dos grupos empresariais, que sededicam aos negócios da energia prosperam e com altas taxas de exploração. Coma inexistência plena da liberdade de imprensa, discussão junto a sociedadesobre energia para que? Energia para quem? E como produzi-la? Acabam restritasa setores acadêmicos e a poucos grupos sociais.
Verifica-se que na questão energética, em particular, naexpansão das fontes renováveis de energia solar-eólica, o Estado é o maiorgerador de conflitos socioambientais. Contraditóriamente, diante da função queseria de mediar os conflitos de classe, o Estado brasileiro tem lado, efavorece os grupos empresariais.
Nesta discussão, a segurança energética de um pais éassegurada pela diversidade e complementariedade. Ambas não repousam somente noduo eólico-solar, e sim em um mix de tecnologias disponíveis localmente eescolhidas dentro de critérios técnicos e socioambientais para satisfazer asnecessidades dos diferentes setores da sociedade.
Parabenizo a jornalista Lillian Primi pela provocação.Lamento que na sua matéria somente alguns interesses foram representados etiveram voz, em particular, técnicos cujas posições são bem conhecidas em proldas megahidroelétricas.
Heitor Scalambrini Costa - Professor aposentado da UniversidadeFederal de Pernambuco.