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“Uma conspiração antinacional de desmonte está exposta à luz do dia”.

“Uma conspiração antinacional de desmonte está exposta à luz do dia”.

25/10/2016 18h02 Atualizada há 10 anos atrás
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“Uma conspiração antinacional de desmonte está exposta à luz do dia”.
“Ataca-se o programa nuclear, vital para a segurança do pré-sal, o programa espacial, a Embraer”, diz Roberto Amaral.
Cientista político, ex-ministrode Ciência e Tecnologia do governo Lula e colunista de CartaCapital, Roberto Amaral faz um alerta:há uma conspiração antinacional de desmonte de nossos projetos estratégicos,principalmente nas áreas de energia e segurança, exposta à luz do dia. Naentrevista a seguir, o autor de A Serpente sem Casca – Da Crise àFrente Brasil Popular detalha a escalada tenebrosa contra oBrasil. 
CartaCapital: Em que pé está o programanuclear brasileiro e que aspectos contrariam os interesses das naçõeshegemônicas?
Roberto Amaral: O governo Temer é socialmenteregressivo e, do ponto de vista político-estratégico, antinacional. Cuidará deremover todos os projetos de desenvolvimento autônomo de nosso País, a começarpela desconstituição de nossa política de defesa, fundada nos programasnuclear, espacial e cibernético, segundo a Estratégia Nacional de Defesa de2008. 
O Brasil possui uma das maioresreservas de urânio do mundo e é um dos poucos detentores da tecnologia do seuenriquecimento. Em Resende (RJ), com tecnologia nossa, que muito devemos àdedicação da Marinha de Guerra do Brasil, são criadas e fabricadas as maismodernas ultracentrífugas do mundo. Nossa produção de urânio enriquecido éfundamental para manter em funcionamento Angra I, Angra II e a futuraAngra III, cuja construção está parada. É vital também para o futuro e sempreadiado programa de construção de novas usinas. 
Os Estados Unidos e seusaliados no monopólio nuclear, a antiga União das Repúblicas SocialistasSoviéticas inclusive, tudo fizeram para que não dominássemos essa tecnologia.Dominada, querem impedir que dela nos utilizemos para nosso progresso. O Brasiltem o projeto de equipar-se com submarinos nucleares, um já está em construção,em Itaguaí, no Rio de Janeiro, em consórcio com a França. Como manter esseprograma, vital para nossa segurança, especialmente para a segurança dopré-sal, se não tivermos o combustível nuclear? A conspiração antinacionalde desmonte de nossos projetos estratégicos, principalmente nas áreas deenergia e segurança, está exposta à luz do dia. Vejamos.
CC: Por que o programanuclear é estratégico?
RA: Porque com a conclusão de Angra3, o Brasil, que domina a tecnologia de produção do combustível, passará aproduzi-lo em escala industrial, privilégio até hoje dos países que têm a bombaatômica, e com eles competirá no mercado mundial. Exatamente por isso éfundamental para eles retardarem a conclusão de Angra 3, e para tantoutilizam o mesmo argumento que levou Angra 2 a ser concluída com atraso de 20anos: o combate à corrupção. 
Desta vez, procura-se enlameara reputação do principal cientista do programa nuclear brasileiro, oalmirante Othon (Luiz Pinheiro da Silva), que era o presidenteda Eletronuclear, proprietária das usinas. Por conta desse ataque, asobras são paralisadas e não há previsão de recomeço, impondo insuperávelprejuízo técnico e financeiro. Quem pagará por isso? O Ministério Público, oTribunal de Contas ou o juiz Moro vão cobrar de alguém? O programa deconstrução do submarino de propulsão nuclear foi praticamente desativado, assimcomo o programa espacial.
CC: O programaaeroespacial é importante para o Brasil por quais motivos?
RA: O programa espacial tem comoprincipal protagonista a Embraer, hoje a terceira produtora de aviõescomerciais no mercado mundial. Para fragilizá-la, surgem denúncias de corrupçãoem vendas internacionais, que dão origem a processos milionários na Justiça norte-americana,com a omissão conivente do governo Temer. 
O programaespacial próprio foi desativado e já se fala em rediscutir a cessão aosEUA da base de lançamento de foguetes de Alcântara, cuja ótima localização,próxima ao Equador, só é rivalizada por Kourou, na Guiana Francesa. 
Sem o combustível produzido na INB, em Resende, compromete-se o programa dos submarinos nucleares (Michel Filho/Ag. O Globo).
Caso se concretize, afastará oBrasil do lucrativo mercado de lançamento de satélites comerciais e deixará olançamento e operação de nossos satélites estratégicos e militares, como os decomunicação e de rastreamento de nosso território para acompanhamento desafras, acidentes meteorológicos e riquezas do subsolo, entre outros, nas mãosde americanos, russos e chineses.
CC: Há quem considere a defesa dopetróleo como anacrônica, dada a possibilidade de substituí-lo por outrasfontes de energia.
RA: O petróleocontinuará por muitas décadas fonte essencial para a produção de energia nomundo. A descoberta do pré-sal, a mais importante do planeta nos últimos30 anos, além de propiciar nossa independência em termos de energia, noscolocaria no patamar dos produtores do Oriente Médio e a Rússia. 
A transformação da Petrobras,âncora do desenvolvimento industrial brasileiro, em mera produtora de óleobruto, complementada pela entrega do pré-sal às petroleiras privadasestrangeiras, significará 70 anos de retrocesso em nossa política industrial.
CC: Se acrescentarmos o impacto daLava Jato na controladora da Odebrecht Defesa e Tecnologia, coordenadora doprojeto de submarino nuclear, quais as probabilidades de sobrevivência deste?
RA: É importante esclarecerque a coordenação do programa de construção de submarinos não é da Odebrecht, esim da Coordenadoria-Geral do Programa de Desenvolvimento de Submarino comPropulsão Nuclear, organização da Marinha criada com estafinalidade. Nesse programa, a Nuclep, empresa estatal, é a responsávelpela fabricação dos cascos resistentes dos submarinos e de componentes daplanta de propulsão do submarino nuclear. 
A Odebrecht participa comointegrante da Itaguaí Construções Navais, que é uma Sociedade de PropósitoEspecífico formada também pelo estaleiro francês DCNS e pela Marinha do Brasil,esta com poder de veto (golden share). A ICN está encarregada damontagem, conclusão da fabricação e entrega dos submarinos à Marinha. 
Com tantos parceiros estratégicosenvolvidos, há motivos para acreditar na sua continuidade, seminterrupções, do ponto de vista técnico, mas isso de nada valerá se a decisãopolítica do governo for pela sua desativação. Desse governo nada se podeesperar em sã consciência.
CC: Como o senhor analisa asalegações de que, por não existir ameaça imediata ao País, não haveria problemaem reduzir ou mesmo cortar o projeto do submarino nuclear?
RA: Uma de duas: ou estúpidaignorância, ou má-fé militante. Até o reino mineral sabe que a moderna políticade defesa se chama dissuasão. Trocando em miúdos, quem quer se defenderprecisa se preparar para a guerra com o objetivo de evitá-la, advertindo oeventual inimigo de que suas perdas não compensariam os ganhos. Assim, evitandoo ataque.
CC: Haveria um sentido comumnos ataques concomitantes ao pré-sal, por meio da venda de campos deCarcará pela nova presidência da Petrobras, e ao dispositivo de defesa comsubmarinos nucleares, por meio do aniquilamento da Odebrecht e outrasempreiteiras da cadeia produtiva de óleo e gás?  
RA: Sim, evidentemente que sim, edemonstrar esse elo foi o que tentei nas respostas anteriores.

*Entrevista publicada originalmente na edição 924 de Carta Capital,com o título “Conspiração à luz do dia”.
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