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O avanço do atraso e o desafio das esquerdas.

O avanço do atraso e o desafio das esquerdas.

07/11/2016 11h32 Atualizada há 10 anos atrás
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O avanço do atraso e o desafio das esquerdas.
As esquerdas e o pensamentoprogressista não podem ficar atônitos, fitando os céus à espera de sinais dealento no momento em que sofre aquela que pode ter sido sua mais profundaderrota em nossa curta e acidentada história republicana. Impõe-se, isto sim,aprender com os revezes, se formos capazes de interpretá-los.
Trata-se, o processo emcurso, de verdadeira debacle não apenas do ponto de vista eleitoral-aritmético(por certo  aquele que mais dói, emboranão encerre toda a questão), tão festejado pela grande mídia, masprincipalmente pelos indicadores ideológicos, bactérias não isoladas e quepermanecerão desgastando o desgastado tecido político.
Com poucas e nãosignificativas exceções, o eleitorado brasileiro votou, nestas eleições,preponderantemente pela direita ou pela alienação reacionária doantipoliticismo, que vai dar no mesmo. As esquerdas perderam substânciaeleitoral graças a erros crassos e reiterados, cuja responsabilidade a ninguémpode transferir. Perdeu o apoio do centro político-eleitoral, que migrou para oconservadorismo e para a direita, como gritam para ouvidos assustados osnúmeros das eleições do dia 30 de outubro. Eles revelam uma derrota ao mesmotempo previsível e surpreendente em sua contundência.
Do esvaziamento eleitoral doPT nenhum outro grupamento do mesmo campo logrou beneficiar-se. A maiordecepção deve ter ficado com o PSOL, anunciado em prosa e verso como seubeneficiário ao lado de outros candidatos de menor torque. Espera-se que opartido compreenda o papel histórico que as circunstâncias lhe ofereceramnessas eleições, aderindo à política de Frente.
O eleitorado independente egrande parte daquele que sempre optou pela esquerda ou pelo pensamentoprogressista migraram para constituir o maior ‘partido’ dessas eleições, adramática e preocupante, embora claramente compreensível, emergência dodesânimo (abstenção), do desencanto (voto em branco) e do protesto (voto nulo).Perfazem quase a metade do eleitorado, e em grande número de casos alcançamvotação superior àquela dos prefeitos eleitos. Esse discurso precisa ser ouvidoe entendido: a derrota do PT foi acachapante, mas nenhum outro partido, excetoo ‘não-partido’, credenciou-se para sucedê-lo.
Como toda e qualquer derrotaeleitoral, essa não é definitiva, como as vitórias tampouco o são (teráfinalmente o lulismo descoberto essa verdade acaciana?). Pode, contudo,perdurar se as esquerdas, a começar pelo PT, que perde a hegemonia sem ter aquem passar o bastão. Os petistas não tiverem a coragem e a humildade de procederuma profunda e transparente autocrítica, que deve ao País e ao nosso povo hámuito tempo. Uma autocrítica que se espera de igual forma e com igualdesprendimento do governo da presidente Dilma e do presidente Lula.
Não se trata deauto-flagelamento. A autocrítica é devida aos trabalhadores, aos setorespopulares e, mais do que que nunca, à juventude. É preciso passar a limpo ofeito e o recusado, como as transformações estruturais na sociedade, como areforma politica, a reforma do Judiciário, a reforma tributária, a reformaagrária e a democratização dos meios de comunicação de massas. É preciso passara limpo os últimos 13 anos de política de centro-esquerda e o papel neladesempenhado pelos partidos e instituições sindicais e populares.
As esquerdas têm muito acobrar do Partido dos Trabalhadores, mas nada ganham com a sua imolação. O PTprecisa entender que está diante de algo mais importante do que seu umbigo, desuas avenças e desavenças internas, das tricas entre facções e tendências, daredução do mundo real a uma disputa interna de um poder fátuo, que, se nãoforam a causa (e não foram), foram porém um agente desestabilizador no governoe na vida partidária, na vida política e institucional do País.
Por tudo isso, o pensamentoprogressista aguarda e cobra a reorganização do PT. Espera que seu fundador eprincipal líder assuma o papel que lhe cabe nessa contingência. O desafio queaguarda o  partido, hoje, é maior do queo de sua criação em 1980.
Entre as muitas causasexplicadoras da tragédia de hoje, para ser revisitada, destrinchada, entendida,há a crise de governança representada principalmente pelo segundo governoDilma  – é preciso assumi-la com coragem.Existe uma crise política de governo, uma enciclopédia de erros cometidos emface das relações entre governo e sindicatos e movimentos sociais. Há errosclamorosos na construção das alianças partidárias e eleição de aliados. E oerro central da ilusão da conciliação de classe na qual o lulismo ingressou,sem a companhia da classe dominante.
Conhecer e identificar esseserros é a conditio sine qua non para nossa recuperação, pois ignorá-los é acerteza de sua repetição, aí então fatal. A esquerda precisa revisitar osignificado e as consequências da opção eleitoral e do pragmatismo que nãopoderiam  ser confundidos nem com eleiçãoa qualquer preço nem com governo de qualquer jeito.
O movimento social, quandonão compreendido, gera surpresas, quase sempre desagradáveis para os condutorespolíticos. Os que não tiveram olhos para ver e instrumental teórico paracompreender as jornadas de 2013 também não entenderam o claro discurso políticorepresentado pelas dificuldades das eleições de 2014. Adicione-se o fato de,eleitos contra a promessa do neoliberalismo conservador, havermos, no governo,tentado implantar a política econômica do adversário – e que tomou livre cursocom a consumação golpe. O que se segue é história lamentável, conhecida erecente, que não carece de relembrança.
Diante dos fatos objetivos,porém, as forças populares, com os partidos e para além dos partidos, souberamreagir e em seu  melhor momentocompreenderam que os desafios impunham, acima de nossos desencontros menores equase sempre irrelevantes, a política de Frente.
Foram as frentes, como aBrasil Popular e a Povo sem Medo, agrupando movimentos como o MST e o MTST,sindicatos como a CUT a CTB, e partidos do campo das esquerdas que promoveram aresistência mais consequente ao impeachment. Havia clareza de que estávamosdiante de desafio maior: um golpe de Estado que caminhava para além dadeposição de Dilma Rousseff (meta ostensiva e imediata), porque, mais profundoque o golpe de 1964, o golpe parlamentar-mediático-judicial de 2016 prescindiuda violência militar e se julga, hoje, em condições de colher nas urnas orespaldo para a consolidação de seu projeto: um governo neoliberal-conservador,anti-nacional, anti-popular, anti-trabalhista, antidesenvolvimentista e profundamenteanti-democrático.
As lições deixadas pelapolítica de Frente não podem ser relegadas a plano secundário. A ameaça dogolpe em curso é maior que a de 1964 e tem raízes protofascistas: não podemosdar as costas ao  pronunciamentoeleitoral de 2016 e deixar de perscrutar o que pode ser, nesse sentido, 2018.São exemplares as votações de São Paulo e do Rio de Janeiro. Na capitalfluminense, de tradição rebelde, o voto popular migrou para o pentecostalismode direita, levando a esquerda para um gueto de classe-média e alta nos bairrosda Zona Sul.
Para a integralização dogolpe, sem atos institucionais, sem tanques, tornou-se fundamental destruir asorganizações políticas de esquerda, a começar pelo PT (processo em curso). Alémdisso, sem mandá-las para o exílio, é preciso destruir nossas lideranças, e abola da vez é, consabidamente, o ex-presidente Lula, vítima de processomediático-judicial-policial de desconstrução jamais visto entre nós.
O golpe, repitamos mais umavez e não pela última vez, não se esgota no impeachment. É pura e simplesmenteuma etapa necessária para a repressão e a desconstrução de um projeto dedesenvolvimento nacional autônomo, fundado no aprofundamento das franquiasdemocráticas, no avanço das conquistas sociais, na emergência das massas, naprodução da riqueza nacional e na distribuição de renda.
O projeto do golpe, comTemer ou sem ele, mas impossível com Dilma ou Lula, é essa política de terraarrasada contra a democracia, a independência e a emergência das massas.

Para enfrentar o programa dadireita, de exacerbação da dominação de classe, precisamos de lucidezdoutrinária, coragem política e eficiência organizativa, o que passa pelaunidade das forças de esquerda, ponto de partida de uma política de Frente amais ampla possível.

Já.


Roberto Amaral é escritor eex-ministro de Ciência e Tecnologia.
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