Geral Um

Um tremendo sucesso.

Um tremendo sucesso.

12/04/2017 17h51 Atualizada há 9 anos atrás
Por:
Fomos moldados em ferro, brasa, mel de cana, pelourinhos,senzalas, terras concentradas, aldeias mortas pelo poder da grana e da cruz, etambores calados. Somos frutos da arrogância dos bacharéis, da inclemência dosinquisidores, da truculência dos oligarcas, do chicote dos capatazes, dosapologistas de estupros e linchamentos e coisas do gênero.
Vou me citar em algo que escrevi faz tempo: o projeto denormatização deste Brasil de horrores, para que seja bem sucedido, precisou deestratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização doscorpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, deforma mais contundente o projeto colonizador fundamentado na catequese, notrabalho forçado, na submissão ostensiva da mulher e na preparação dos homenspara a virilidade expressa na cultura da curra: o corpo convertido, o corpoescravizado, o corpo feito objeto e o corpo como arma letal. Este Brasil é umpaís de corpos doentes, condicionados e educados para o horror comoempreendimento.
No meio de tudo isso , para piorar , parece perdida a curtoou médio prazo a possibilidade de qualquer projeto nacional menos bizarro. Osprojetos de uma esquerda que romantiza o precário e de outra quepragmaticamente acha que os fins justificam os meios estão aí esparramados,parecem birutas de aeroporto em vento de viração. As ilusões iluminadas dos liberais decentes foram atropeladaspela saudação que um troglodita fez ao assassino Brilhante Ustra, o capatazmais grotesco do regime de exceção de 1964.
O parlamento é de uma indigência tamanha que parece sedividir em três bancadas que não são exatamente ideológicas: a do cabelo acaju,a do cabelo preto "asas da graúna" tabletes Santo Antônio e a doimplante cabeleira de boneca ou peruca de brinquedo assassino. O judiciário seapresenta, em seu alto escalão, com a empáfia e a vaidade  adequadas às celebridades de ocasião, seprestando a convescotes com os poderosos. O executivo é inclassificável.
Mas temos o povo. Será?
Sinto informar, mas a maioria esmagadora da população -pobres, ricos, urubus, tricolores, bacalhaus, cachorrada - apoia as pautas maisobscurantistas. O povo libertário só existe nas nossas ilusões virtuais eestamos em minoria acachapante. A inclusão apenas pelo consumo deu nisso: arevolução é o carro na garagem comprado em 76 prestações. Nosso próximo passoparece ser a privatização, ao mesmo tempo, das universidades públicas e dospresídios brasileiros. Virar dono de penitenciária vai ser um tremendo negócio.E a gente faz o que? Morre feito bandido em filme de faroeste - metendo broncano salão. Mas estamos em minoria evidente; a população é majoritariamenteconservadora e achar que seremos vanguarda das massas, com nossas tochasiluminadas, está mais perto do delírio que do sonho.
É neste sentido que não acho que o Brasil deu errado.Discordo e recentemente escrevi sobre essa ideia. O Brasil foi projetado peloshomens do poder para ser isso aí: excludente, racista, machista, homofóbico,concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua gente,intolerante, boçal, misógino, castrador, faminto e grosseiro. Somos isso tudo,não? Neste sentido, desconfio que nosso problema não é ter dado errado. OBrasil como projeto, até agora, deu certo.
Eu não desisto. O trabalho é miúdo, constante, longo, deenfrentamento e aprendizado. A ideia de resistir não é mais suficiente. O papoé reexistir mesmo. Sei de onde venho: sou das trovas do Bandarra, dos cantos daAruanda, da procura de Ivy-Maraê, da certeza do passeio do touro coroado doLençol buscando sair do deserto de Alcácer-Quibir, do prelúdio das bachianas norodopio de Corisco, da solução do mundo desvelada no contracanto do Pixinguinhano Um a Zero.
É por isso que messianicamente me agarro, nas horas dedesespero, na lembrança de que na beira do abismo, parido pelo ventre do navioque atravessou a calunga gritando o triunfo da morte, alguém sobreviveu e bateuum tambor; o mesmo que reverberou um dia, afirmando a vida e cuspindo na carado capitão do mato, numa esquina vagabunda do Estácio.
Em resumo, nós somos, a definição que me ocorre é essa,  um empreendimento escravagista fodidor doscorpos extremamente bem-sucedido. Deu certo até hoje, com sobras.  A nossa chance é começar a dar errado com amaior urgência.


Luiz Antônio Simas.
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários