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ENTREVISTA: Jorge é como o brilho das estrelas, que durante o dia dormem para a noite brilhar.

ENTREVISTA: Jorge é como o brilho das estrelas, que durante o dia dormem para a noite brilhar.

02/06/2017 15h51 Atualizada há 9 anos atrás
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ENTREVISTA: Jorge é como o brilho das estrelas, que durante o dia dormem para a noite brilhar.
Já com seus 10 anos de idade,os pais de Jorge se mudam para o “Alto do Pará”, no mesmo bairro. Lá ele conheceuDodó. Amigo que influenciou muito a sua maneira de enxergar o mundo.
No Bairro Liberdade ele ganhouo apelido de de Papapá do amigo Adelson Espinheira. Hoje, todos oconhecem por Jorge Papapá. Um negro que orgulha a todos os brasileiros com suascomposições e posição política na sociedade. Para os que tem o privilégio deconviver com ele, veem nesse homem, o dos gênios da música brasileira.
Jorge é como o brilho dasestrelas, que durante o dia dormem para a noite brilhar.

A infância

Dodó era um playboy. Um caracabeludo. Porque naquela época era o estiloque fazia sucesso entre as garotas. E Jorge era um negro com cabelo Black Power.

Papapá: imaginem naquela épocacomo os negros se sentiam. O espaço na sociedade era muito menor. Até hoje é difícil um negroentrar em uma universidade. Claro que com as cotas facilitou muito. Hoje a situação é diferente, há um orgulho negro em todos os rostos da raça no país.

Blog: mas você teve um irmãoque conseguiu ingressar na universidade.

Papapá: verdade! Meu irmão, FirminoPereira dos Santos, em 1970 passou no vestibular e a família fez festa o anointeiro. Porque não era comum um negro passar no vestibular. Só quem passavaeram os brancos, com sobrenome de família. Imagina um negro com nome de Firmino,não era para dar certo. Mas deu.

A musa inspiradora

Blog: E seu início na música,como se deu?

Papapá: Chegando no Alto do Pará,conheci Dodó que tocava violão. Playboy, cabeludo e tocando violão. Eu colei nele.Ele sentava na frente da minha casa, eu via tocar e me emocionava com aquilo. Eas meninas iam lá ouvir aquele som. Eu conheci a música através dele. Mas foina Escola Cônego Emílio Lobo. Lá eu caí no esparro de me apaixonar pela meninamais bonita, a Gicélia. Eu a amei até a idade adulta. Mas, eu nuncative coragem de dizer isso a ela, nem a ninguém, porque as pessoas iriam rir daminha cara. Eu só ia a aula, para ficar olhando para ela. Quando terminavam asaulas, eu subia a ladeira correndo e ficava na porta de casa para ver Gicéliapassar, pois ela morava no Alto do Peru. Essa era a minha felicidade naquelesdias. Foi ela quem me inspirou a fazer as primeiras canções. Na verdade, eu sócomecei a fazer música, escrever letras, sem mesmo tocar violão, por causa deGicélia.

Blog: sem violão e sem sabertocar?

Papapá: foi esse sentimento,junto com a presença de Dodó, que me despertou a vontade de ter um. E eu pediao meu pai. Que comprou o violão de Zezinho Cabeludo. Um Di Giorgio jacarandáleve Nº 18. O melhor violão que eu tive até hoje. Comecei a tocar sem técnicanenhuma, do meu jeito. E as canções começaram a surgir para Gicélia. Hoje euagradeço a ela.

O apelido
Blog: e quando surgiu o nomePapapá?

Papapá: quando nos mudamospara o Bairro Liberdade, lá eu fui estudar no Ginásio Pinto de Carvalho e conhecio Adelson Espinheira. Ele era um grande músico. A mãe era cantora, o irmão eramúsico. Foi ele quem me apresentou várias pessoas do mundo da música. Foi elequem colocou o apelido de Papapá. Até hoje eu acho que foi porque eu ficavatocando e enrolando no violão. Comecei então a participar de eventos no Bairro.

A entrada na Escola de Música

Blog: você então tomou gostopela música?

Papapá: eu vi uma oportunidadeno curso Preparatório de Música da Universidade Federal da Bahia e me inscrevipara estudar violino. Claro que a minha intenção não era estudar violino. Euqueria mesmo era me envolver com aquele ambiente. Um dos melhores do país quetinha professores reconhecidos. Alguns vindos da Europa, como Ernest Vidman,que veio da Itália. Lá tinha os melhores professores brasileiros, entre eles, Lindemberg Cardoso,Agnaldo Ribeiro, Walter Smetak, Fernando Cerqueira. Era um time de craques, eeu fui aluno desses caras. E quando eu entrei lá, eu tinha como colegas, Gerônimoe Ari Dias. Moraes Moreira estava saindo. Toda essa galera frequentava a escolade música. Para mim foi um ambiente perfeito. Foi lá que eu fui introduzido aomundo profissional da música. Lá, no Bairro do Canela, também funcionavam as escolas de belas artes ea de teatro. Então comecei a fazer músicas para o teatro. As peças que seapresentavam no Teatro Santo Antônio. Fui um dos que mais fez músicas para oteatro naquela época. Fiquei especialista nisso.

Blog: foi neste período quevocê se envolveu com a criação do Sindicato dos Músicos?

Papapá: foi quando eu conhecio Franklin Junior, baixista da Orquestra Sinfônica. Ele queria discutir aquestão social dos músicos, e nós descobrimos que o Sindicato dos Músicos tinhasido cassado em 1964. E foi aí que começamos a fazer reuniões visando esseobjetivo. Gilberto Gil nos deu uma força muito grande, para que o objetivo fossealcançado, chegando a participar de reuniões. Para atrair os músicos, nós criamoso Projeto Música nos Bairros e o Seis e Meia, similar ao Projeto Pixinguinha.Quem muito nos apoiou, também, foi a fundação cultural da Bahia. O presidente eraGeraldo Machado, e esteve conosco em vários projetos.

Blog: essas apresentaçõesficaram restritas aos Bairros de Salvador?

Blog: não! O Teatro CastroAlves, recebeu pela primeira vez artistas locais através dos nossos projetos.Porque antes, só se apresentavam lá, os “artistas nacionais”. O palcoprincipal, antes, não era destinado ao artista local. E nós furamos isso. Eulembro que eu participei de um show com Moraes Moreira em 79. Eu abri, no meiotinha um artista intermediário, que era o Djavan e se encerrou com a atração nacional, o Moraes Moreira.

A parceria com Sérgio Passos

Blog: você almejava ser umgrande compositor?

Papapá: quando eu faziamúsica, eu não pensava em ser compositor de cantores famosos. Eu fazia cançõespara mim. Mas foi quando eu conheci o Sérgio Passos. Eu fiquei impressionadocom a maneira dele tocar e com a força do seu cantar. Então eu o chamei parafazermos uma pasceria. Começamos a trabalhar juntos e foi a partir daí queconseguimos um contrato de exclusividade com a Sony, que permanece até hoje.Naquela época, a música baiana estava em alta. Nós fazíamos canções já pensandono mercado. Nós fomos eficientes nisso. Vários artistas baianos gravaram nossasmúsicas. Cheiro de Amor, Araketu, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Timbalada,Chiclete com Banana, Asa de Águia, Pimenta Nativa. Foi um tempo que ganhamosmuito dinheiro. As gravadoras ficavam de olho nos compositores baianos. Éramosnós que rendíamos dinheiro para elas. Além de nós dois, eu e Sérgio Passos,mais dois compositores foram contratados pela Sony, Alain Tavares e Gilson Babilônia.

Blog: dentre as suascomposições, qual a que mais lhe rendeu frutos?

Papapá: todo mundo sabe que amúsica que impulsionou a nossa carreira foi a “Deixo”, Gravada por Ivete Sangalo.Foi inclusive tema de novela e rende frutos até hoje. Ela é tocada todos osdias nas rádios do mundo inteiro. Teve também “Ilumina”. Essa teve váriasregravações em vários países como a Holanda, Alemanha, no Japão. E cadaregravação nós ganhamos.

Blog: como surgiram essascomposições?

Papapá: eu morava no Bairro Itapuãem Salvador. Lá eu recebia muitos amigos. Dentre esses, muitos eramcompositores. Nestes momentos, sempre pode surgir uma composição. Porque eu nãoacredito nessa coisa de, “vamos compor”. Para mim, a música é quem me busca.Foi lá onde muitos dos meus sucessos foram compostos.

Um novo lugar para se viver

 Click na foto e ouça a rádio Papapá.
Blog: hoje você mora em PauloAfonso. O que lhe fez mudar de vida?

Papapá: eu quando conheciPaulo Afonso, fiquei impressionado com a cidade. Aqui conheci muitos amigos. Ecomecei a vir periodicamente para passear. Terminei criando um vínculo com acidade. E Salvador está muito grande. Eu decidi então, que precisava de umlugar mais tranquilo. Apesar de ser novinho. Eu antes nunca tinha pensado emmorar em uma cidade do interior. Eu sempre me achei um cara urbano, mas aoconhecer Paulo Afonso descobri que poderia morar em um lugar bacana. E com achagada da internet e as redes sociais, eu acho que você pode estar em qualquerlugar. Pode estar em uma caverna e pode estar no mundo inteiro. Bastar teracesso a internet, as redes. Hoje, você pode estar em todolugar, estando em um só lugar. E hoje estou aqui.

Blog: na cidade você seestabeleceu e já trabalha. Como foi isso?

Papapá: aqui eu conheci oGiuliano Ribeiro, que era o diretor das Rádios Delmiro (ele deixou a gerênciano dia de ontem). Fiz um projeto para um programa. Foi assim que nasceu o Balaio.Um programa Diferente! Um programa descontraído, de entrevistas eentretenimento. Há cinco anos está no ar. Hoje eu trabalho em função desteprograma. Criei também uma rádio web, a Rádio Papapá. Lá você vai ouvirsucessos eternos e não os do momento. Criamos, eu e Clériston Nascimento (Buiú), também o Palco Livre. Um projeto dearte, que acontece em praça pública. Sempre com quatro artistas. Já se apresentaram,dançarinos, artistas plásticos, músicos. Esse trabalho foi feito com o apoio dasecretaria de cultura do município. Ele é coordenado por mim, Clériston Nascimento(Buiú) e Ana Paula.

Blog: e o futuro?

Papapá: o futuro tem queperguntar a Deus. A minha intenção é continuar fazendo do Balaio um programa diferente.

Quer ouvir a rádio Papapá? Click aqui.
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