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SÓ A LUTA traz mudança. (Por Helenice Rocha)

SÓ A LUTA traz mudança. (Por Helenice Rocha)

24/08/2017 08h44 Atualizada há 9 anos atrás
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Sentirão vergonha de nosso silêncio e de nossa apatia.

Não haverá certamente nenhum espanto, posto que abrutalidade que estamos permitindo tomar conta do mundo há também de eliminar apossibilidade de espanto e indignação. A brutalidade elimina qualquer espasmode surpresa.

Casos como o da deputada que tem recebido sistematicamenteameaças pela internet, pelo whatsapp e também pessoalmente, não nos indignamporque estamos atolados, sem perceber, na mais absoluta falta de empatia. Numdos áudios, o sargento da aeronáutica a ameaça "vou rasgar você nomeio" e avisa que o clã Bolsonaro faz parte do grupo. Os xingamentos eameaças que se ouve no áudio são dignos de uma sessão de tortura.

O neto do ex-presidente Figueiredo, aquele que dizia quepreferia o cheiro de cavalo ao cheiro de povo, postou nesta semana no facebookum efusivo agradecimento ao governador do RJ por ter deixado falir a UERJ. Notexto, ele vibra diante da possibilidade dos professores (sem salários)morrerem de inanição. Mas como estamos cindidos psicoticamente, não nosafetamos.
Do salário mínimo para 2018, será tirado 10 reais. Enquanto isso,um magistrado do Mato Grosso recebeu em julho salário de mais de 500 mil eoutros dezoito, receberam mais de 300 mil. Ao ser indagado sobre o valor,muitíssimo acima do teto, o primeiro responde "tô nem aí". Assim comoa excelência de Mato Grosso, nós também não "estamos nem aí."

O prefeito da maior cidade do país xinga, humilha e ofendepolíticos e militantes do PT, enquanto abandona a periferia sem saúde, enquantocorta parte da merenda das crianças com a justificativa de combate a obesidade,enquanto deixa aumentar o número de moradores de rua, enquanto trama vender opatrimônio público de olho no financiamento de sua campanha para presidente em2018.
Não precisamos olhar para Barcelona ou para Charlottesvillepara vislumbramos a face do horror. Os massacres à população negra, LGBT eindígena ocorridos aqui apenas neste ano, nos dão a dimensão do nosso horrorcaseiro.

A sanha demolidora do governo golpista que nos desgovernacom as reformas que vem fazendo desde que assumiu, nos promete um país arrasadopara os próximos anos. Com saúde, segurança e educação sucateados, a miséria ea violência aumentarão. Mas não nos abalamos porque, afinal, não sabemos denada.

A extrema direita e suas personas, nazistas, fascistas,homofóbicas, machistas, xenófobas, pretendem dilacerar todas as possibilidadesde uma sociedade mais justa e mais humana. A prova evidente é a adesão em massaaté dos mais "letrados" e dos mais jovens, às ideias de políticos ede grupos que propagam diuturnamente o ódio. Ainda assim não reagimos porque,afinal, a liberdade de expressão é um bem precioso.

Nos espaços onde divido com colegas os meus afazeres profissionais,vejo alguns absolutamente indiferentes diante do sofrimento deste presentetenebroso e diante da promessa de mais sofrimento que um futuro sombrio nosacena. Estão totalmente incapazes de dimensionar suas responsabilidades éticasdiante deste estado de coisas.

Estamos falhando absurdamente. Tínhamos a obrigação moral,ética, instintiva até, de deixarmos um mundo melhor para os que virão.

Os incautos e hoje privilegiados, os brancos, os da classemédia, os que não sentiram ainda o corte na carne, não tardarão a reconhecerque ficaram do lado errado da luta. Mas os seus filhos e netos saberão, aindaque não seja pelos livros de história, ainda que seja pelos resíduosinconscientes a eles transmitidos, saberão da covardia de seus antepassados quepreferiram a inércia, a preguiça e a covardia ao invés do trabalho árduo, duroe sofrido de denúncia e combate a todas essas formas de ódio, pois é de ódioque se trata tudo isso. Ódio ao próximo, ao diferente, ao povo, à justiça, aoelemento humano.

As gerações futuras sentirão vergonha de nós e tomara queassim seja. Se forem capazes de sentir vergonha, é porque talvez tenhamcompreendido um pouco daquilo que hoje a grande maioria não está compreendendo,que tudo isso é muito vergonhoso. Por ignorância, má fé ou cinismo, a verdade éque a maioria não está compreendendo.

A psicanálise nos ensina que a pulsão de morte opera emsilêncio. Eu diria que no nosso silêncio diante de tanta brutalidade, opera apulsão de morte na sua forma mais destrutiva e mais avassaladora, que é odesligamento. Desligamento da nossa própria fragilidade e desamparo, cujoreconhecimento seria a única possibilidade de nos aproximarmos como gente, queainda somos.

Por Helenice Rocha - Psicanalista e Professora de Psicanálise na Universidade Guarulhos.
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