Geral À

À esquerda, as mulheres são mais bonitas. (Por António Santos)

À esquerda, as mulheres são mais bonitas. (Por António Santos)

24/09/2017 09h04 Atualizada há 9 anos atrás
Por:
À esquerda, as mulheres são mais bonitas. (Por António Santos)
A mulher mais bonita é a que acredita mesmo (e di-lo comtanta força que não podia estar a mentir) que um mundo melhor é possível.Porque os ideais embelezam os corpos, um cartão vermelho a espreitar de umacarteira aberta pode ser mais sensual que unhas vermelhas a fechá-la. E porqueo socialismo é entre todos o ideal mais belo, a consciência política pode sermais sexy que uma mini-saia, saltos altos e meias de vidro.
As mulheres revolucionárias são mais bonitas porque são maishumanas e sentem como suas as dores de parto da humanidade sofrida. As mulheresrevolucionárias sentem mais fundo, indignam-se mais vezes, gritam mais alto edesejam com mais força. As mulheres revolucionárias cheiram a pólvora, beijamcom a ansiedade de saber que só temos estes anos e entregam-se mais porque nãotêm nada a perder. As mulheres à esquerda são mais perigosas: não respondem aosaborrecidos ditames da conveniência conjugal nem à opressora liturgia do lar,lêem bons livros e vêem bons filmes de que nunca ouviste falar. Não sãosubalternas de nada, vão à luta e lideram os homens. Acreditam na fruição doamor pleno e riem-se do cumprimento de contractos. Gabriel García Márquez diziaque o amor tem mais quartos que uma casa de putas. Mas há casas de putas ecasas de putas... O coração da mulher revolucionária não é um T0, onde só cabestu e depois se fecha ao mundo como um ouriço-cacheiro. As mulheres de esquerdaconseguem amar a humanidade inteira. O coração da mulher revolucionária é maiorque o hotel Marriott e tem mais capacidade que o parque de campismo exterior daFesta do «Avante!».
As mulheres de esquerda não são senhoras nem usam casacos depeles: são edifícios elegantes que quando falam te ensinam coisas. As mulheresrevolucionárias são mais femininas que a ilusão do espelho e que a estéticasenil das revistas de moda: vestem uma t-shirt e uns calções e vão construir afesta, para se sujarem se for preciso. Voltam tisnadas de óleo e sujas de terrae ainda mais bonitas. As mulheres de esquerda são femininas porque o são. Masde uma feminilidade diferente, da sua própria lavra.
As mulheres revolucionárias são mais bonitas porquecompreendem que também a beleza obedece às leis dialéticas que regem a históriado mundo. A beleza feminina é dialética pura, embora alguns homens só seapercebam disso durante momentos fugazes: aquelas palavras que não se tiveramde dizer, a ameaça de um sorriso nos cantinhos dos lábios, a alça descaída dosutiã, uma nova e insondável profundidade na aguarela de um olhar, que édiferente porque vê mais longe, até ao horizonte sempre mais longínquo e quehá-de resgatar-nos da barbárie. Os olhos das mulheres de esquerda são como osda Blimunda Sete-Luas e vêem sempre o que os homens são no fundo. Às vezes, ocabelo das mulheres de esquerda é como o dia está a ser. E também por isso,cada reflexo que brilha em solução de cobalto é mais verdadeiro, cada jeitorebelde é mais puro e cada ponta espigada e insurgente é mais autêntica.

As mulheres revolucionárias são bonitas quando estãocansadas, porque trabalharam oito horas. São bonitas quando estão tristes,porque estão desempregadas. São bonitas quando, como dizia a Maria Velho daCosta, acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas. E,sobretudo, as mulheres revolucionárias amam melhor, porque sabem que o amorverdadeiro é só uma espécie invulgar de camaradagem.

Por António Santos.
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários