A matéria daquele dia chocoutodo o mundo. O repórter Marcelo Canellas mostrou a fome que vivia a cidade deAraçuai em Minas Gerais. As imagens pulam do livro de João Cabral de Melo Neto, “Mortee Vinda Severino” e aparecem nuas e cruas em horário nobre da televisãobrasileira.
Naquela semana, como aindadurante muito tempo, a miséria do povo pobre era o gancho para buscar audiênciae comover a todos.
Na onda das reportagens pararetratar a fome no Nordeste, o Jornal do Brasil, em 1983 estampou na capa afoto de um homem exibindo um Calango. Lagarto que vive na região do nordeste doBrasil. A chamada da matéria foi, “Cearenses comem Lagartos para não morrer defome”. O que não refletia a realidade, nem local, nem de toda a regiãonordestina. E durante muito tempo, o povo viveu com esse estigma, criado poralguém que deve ter achado que aquela imagem serviria para o propósito da vendado jornal Carioca.
Durante muito tempo eu vivi ame perguntar onde miséria, no Nordeste, região que moro, o povo come calangos?Porque estou com 54 anos e nuca vi, nunca soube de alguém perto, ou mesmo distante,a não ser por reportagem de gente do Sudeste, que alguém tenha comido umlagarto desta espécie.
Passados tantos anos a fomeentre o povo diminuiu bastante através de vários programas sociais implantados e que servirão a todos os pobres do Brasil. Sim! Porque a pobreza não éexclusividade do Nordestino. Ela está em todas as cidades. Algumas mais eoutras menos, mas existi.
Hoje o que choca é a “Farinata”.Ração para humanos que o atual prefeito da cidade de São Paulo está tentandoimplantar como programa de combate a fome para pobres. Feito com alimentos queseriam descartados da indústria ou do comércio e que estariam próximos da datado seu vencimento.
São Paulo hoje está para aimprensa, assim com esteve o Nordeste um dia, ela se tornou uma manchete dejornal, “A Farinata do Doria”.
Dimas Roque.
Foto: Divulgação da Prefeitura de São Paulo.