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Em 2018, a nação fica entre a esperança e a ameaça. (Por Roberto Amaral)

Em 2018, a nação fica entre a esperança e a ameaça. (Por Roberto Amaral)

04/01/2018 08h43 Atualizada há 9 anos atrás
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A análise retrospectiva, de um ano ou de um século, é bemmais fácil do que a antecipação de processos que ainda estão em gestação.Certas dinâmicas sociais, frequentemente, são percebidas apenas quando seusefeitos se expõem à luz do dia.

O cientista social está fadado a ser um “engenheiro de obrafeita”.  O mergulho no passado serve paraa compreensão dos fatos novos. Os dias que estão por vir estarão condicionadospelos dias que se foram.

O ano de 2018 foi gestado, mais acentuadamente, a partir dejunho de 2013, naquelas jornadas cuja natureza ainda não nos foi dada ao plenoconhecimento. O próximo ano poderá representar tanto a prorrogação de 2017quanto o seu fim, dramático ou sereno, dando início a um novo ciclo, que sedistinguirá do pacto reacionário por apontar para o restabelecimento do projetodesenvolvimentista e inclusivo.

Um novo pacto, este popular, afastará do horizonte asameaças de hoje, que não se reduzem às consequências do neoliberalismo radical.Mais grave, mais pungente, é a radicalização conservadora, como pensamento,ação, política, governo, valores sociais e ideologia.

O conflito, que não favorece os projetos de conciliação declasse, utopia de setores da esquerda, presidirá as manobras da direita econdicionará as movimentações do campo popular, independentemente dos partidose das candidaturas postas e por serem anunciadas.

Essa radicalização percorre a crônica dos últimos anos.Desconhecida desde o fim do período militar, foi, a partir do golpe de 2016,assumida como política de Estado. A radicalização cresce, se espraia e seaprofunda à mercê de uma formação que conta em suas linhas, agindo em uníssono,além dos Três Poderes constitucionais, o poder econômico sob a liderança docapital financeiro, e o monopólio da mídia, um e outro “Estados” dentro doEstado.

Para preservar seus interesses e pagar “dividendos” aos seusfinanciadores, essa coalizão depende da radicalização e aprofundamento de suasteses reacionárias. Depende do avanço das medidas antipopulares e antinacionaisque explicam o impeachment.

Além do mais, a direita e seu governo têm pressa: 2018 foianunciado como o termo da aventura. Atores, coadjuvantes e beneficiários, daquie de todos os mares, sabem que lhes resta pouco tempo, pois o próximo ano serámarcado por eleições gerais, nas quais avulta mais e mais a influência de Lula.Sua eleição, como a de Ciro Gomes, a de Guilherme Boulos ou a de ManuelaD’Avila sustará a continuidade da regressão social.

Assim, se é possível adiantar uma característica doincógnito 2018, será o avanço do autoritarismo e da arbitrariedade, quecompreendem a violência física e a violência contra os interesses da nação e doPaís, a repressão aos movimentos sociais, alcançados pelo desemprego, pelasrestrições ao sindicalismo e pelos ataques à proteção social e à Previdência,punindo os mais pobres. Os ataques às universidades federais não constituemfatos isolados.
Como sempre, desde 1831 ao menos, é a direita que toma ainiciava, indica o campo de batalha e escolhe as armas, desta feita o conflitoque abre espaço para a ruptura.

sse deverá ser, porém, um dos braços da história próxima,não será a História toda. Outros valores e outros agentes sugerem aconfrontação, em termos ainda não antecipáveis, simplesmente porque a toda açãocorresponde uma reação, e esta, para sobrepor-se ao desafio, deverá ser maiscontundente do que a ameaça.

A esperança de que as forças populares enfrentarão o desafiosobrevive, pois a radicalização da direita será a fonte inevitável daradicalização das esquerdas, se superarem a fragilidade atual das organizaçõespartidárias e se reerguerem no processo eleitoral, que estimula debates emobilizações de massa.

As eleições, aliás, na especificidade deste 2018, poderãoser um divisor de águas, que revelará, como a imagem no espelho, no debate e novoto, as dicotomias classe versus classe, desenvolvimento vs. estagnação,soberania versus dependência, democracia versus autoritarismo.

Não poderão se afastar dessa agenda os candidatos quetrafegam no campo do centro-esquerda: serão gradativamente empurrados para aesquerda tout court pela dinâmica do processo político-eleitoral.

Lula anuncia que a Carta aos Brasileiros de 2002, dirigidaaos banqueiros, perdeu sentido. Promete novo manifesto-compromisso, dirigidoagora ao povo, às massas subalternas, operários e camponeses, proletáriosurbanos que sobrevivem nos serviços e àqueles setores da classe média perdidosno último quinquênio.

Em outras palavras, ainda que busque fortalecer sua imagemde conciliador, Lula será envolvido pelas circunstâncias: à ofensiva ideológicada direita não poderá responder senão retomando teses tradicionais da esquerdaabandonadas em seu governo, por este ou aquele motivo, destacando-se odesequilíbrio da correlação de forças.
Os dados de hoje dizem que, realizadas as eleições nostermos da legislação vigente, ou seja, sem casuísmos legais ou jurisdicionais,o que se pode chamar de campo da esquerda deverá crescer e, a depender do apoiopopular, terá condições políticas e fáticas de reverter muitas das medidas impostaspelo atual ajuntamento que nos acostumamos a chamar de governo.

Ajuntamento que, ademais, pode ter muitos de seuspersonagens, a começar pelo comandante da súcia, chamados às barras da Justiça.Despidos das armas do poder e do foro privilegiado, governantes e agentes dogolpe responderão a processos na Justiça de primeira instância, levando para2019 o clima tenso vivido em 2017.

Os dados de hoje ainda dizem que nem a aliança governistanem o conjunto da direita partidária conseguiram criar uma candidatura emcondições de barrar o retorno de Lula, com todos os seus desdobramentos óbvios.Sabem disso os estrategistas do sistema, de dentro e de fora do País.

 A História não serepete, mas a expectativa de 2018 traz à reflexão a crise de 1955, quando ogoverno golpista que derrubara Getúlio Vargas se viu diante da eleição deJuscelino Kubitschek e de Jango. A reação político-militar-midiática, com oapoio da Fiesp de então, via, passado pouco mais de um ano após a tomada dopoder, em eleições que não pôde evitar, frustrado o sonho de “exorcizar a eraVargas”.

Lançada, a candidatura de Juscelino foi declaradainaceitável pelos ministros militares e na Justiça foram interpostos recursoscontra seu registro. Eleito, JK teve de enfrentar nova ofensivapolítico-judicial contra sua diplomação.

Diplomado, sua posse foi questionada por um novo golpemilitar, sufocado (a crise e o golpe e o contragolpe de 11 de novembro de1955). Empossado, ainda enfrentaria dois levantes militares e pedidos deimpeachment. No governo e fora dele, como Vargas e Lula, foi acusado decorrupção.

Cassado em 1964, processado, nada foi encontrado pelosmilitares que pudesse condená-lo.
A ordem golpista vinha articulada desde 1945 e alcançou seuapogeu em 1964. Retorna agora, dispensando as Forças Armadas de um papelprecursor.

Em 1961, com a renúncia de Jânio, enfrentamos uma novatentativa de golpe, com o veto dos ministros militares à posse de Jango,vice-presidente constitucional. O golpismo puro e simples foi derrotado nasruas pelo levante popular comandado por Leonel Brizola.
Mas os acertos pelo alto, a conciliação que preserva osinteresses dos dominantes, contornaram a História que o povo escrevia. Com apressão da rua, militares e civis chegaram à fórmula palatável: a subtração dospoderes reservados a Goulart pelo presidencialismo. O parlamentarismooportunista foi em horas implantado por um Congresso de cócoras. Jango assumiucomo queriam os militares, para reinar sem governar.

A história não se repete, mas o que assistimos, em face dacandidatura Lula e sua potencial eleição, nos lembra idos vividos. Além dosmeios de comunicação de massa, em sua faina visando a desconstrução da imagemdo ex-presidente, agem, de mãos dadas, o Poder Judiciário (de juízes de pisocomo Sergio Moro até o STF, passando pelo TSE e tribunais superioresregionais), o Ministério Público e a Polícia Federal.

O intuito não é apurar pretensas irregularidades cometidaspor Lula, mas impedir, hoje, sua candidatura; amanhã, sua diplomação, a posse eseu governo, ao preço mesmo de sua liberdade, ameaçada por condenaçõesanunciadas.

Essas considerações levam em conta uma tese: as eleições de2018 não estão asseguradas, pois poder nenhum põe a corda no pescoço com suaspróprias mãos. Escrúpulos à parte, tudo será feito para que a súcia que tomouconta de Brasília garanta a conservação do poder ilegítimo.

Para tal, há um roteiro prefixado. Ele começa com anecessidade de impedir a eleição de Lula (ou de quem quer que seja que contesteo atual establishment), mas aí não se encerra.

Para a eventualidade da eleição de um oposicionista, osistema tirou do colete a carta que anuncia novo golpe dentro do golpe, oesvaziamento do presidencialismo e dos poderes do presidente da República, umparlamentarismo de fato, ou um “presidencialismo mitigado” implantado medianteemenda constitucional, fórmula com a qual os feiticeiros do Palácio do Jaburuesperam contornar a necessidade de consulta popular.

Uma das marcas de 2018 deverá ser uma nova saga em defesa dalegalidade e da democracia, que compreenderá a defesa das eleições, a segurançade que Lula poderá disputá-las e da garantia da preservação dos poderes dopresidente da República, com a rejeição de fórmulas parlamentaristas,disfarçadas ou não.

O próximo ano girará entre a esperança de retomada dodesenvolvimento e de construção de uma sociedade minimamente igualitária, e aameaça de consolidação de um projeto protofascista, antinacional e antipopulare anacrônico.

Será, pois, um ano de turbulências, como o foram osantecedentes. Mas, desta feita, tomado pela disputa ideológica, abandonadapelas esquerdas desde ao menos 2002. Será 2018, igualmente, a últimaoportunidade para a construção da unidade das forças democráticas e populares,que se impõe como imperativo histórico.


Por Roberto Amaral.
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