SEB, ou Sistema Educacional Brasileiro, detinha o antigo COC(Colégio Oswaldo Cruz), um gigante do setor privado da educação nascido em1986, em São Paulo, e vendido em 2011 para a Pearson PLC.
A Pearson PLC é uma multinacional com sede em Londres,criada em 1844 e que, dentre outras, é dona do Financial Times e de metade doThe Economist.
Em 2009, a The Economist afirmou, em artigo, que a "máqualidade da educação brasileira" é o grande fator de entrave para odesenvolvimento do país.
A mesma revista, em 2012, colocou o Brasil em penúltimolugar em educação num ranking de 40 nações. Esse estudo foi encomendado pela...Pearson PLC.
A mesma que comprou o COC, que era da SEB, que comprou o AZ.
A mesma que é dona de metade da... The Economist.
Liguem os pontos.
Vamos para outro lado da questão:
O fundador da SEB, que vendeu parte imensa da empresa para aPearson PLC, se chama Chaim Zaher.
Chaim Zaher é amigo pessoal do ministro da Educação,Mendonça Filho, e também da secretária executiva do MEC, segunda em comando, MariaHelena Guimarães de Castro.
Chaim Zaher sugeriu a Mendonça Filho levar o Prouni e o Fiesao ensino secundário. No qual o SEB é um gigante.
Mendonça Filho, nosso ministro, já afirmou que o EnsinoMédio brasileiro precisa de "mudanças urgentes".
Maria Helena Guimarães de Castro, segunda em comando, jáafirmou que custeio das universidades públicas é insustentável. E que é precisosintonizar o Brasil com o resto do mundo (desconfio do que isso significa...)
Para Maria Helena, o fundador do SEB, Chaim Zaher (aliás,seu amigo pessoal de mais de 25 anos), é um sujeito dedicado, inteligente,batalhador e "tem feito um trabalho muito importante na educação".
O SEB também tem universidades privadas. O Pearson PLC,idem.
Liguem os pontos.
Vamos avançando.
A Pearson PLC também comprou, em 2013, a Wizard, o Yázigi eo Skill (todos os três cursinhos de inglês). E também era dona, até 2017, daMicrolins e da SOS computadores (cursos profissionalizantes).
O Novo Ensino Médio tornou inglês disciplina obrigatória. Etornou a educação profissionalizante um "itinerário formativo" nosmoldes da profissionalização das décadas passadas (isto é, descolada dequalquer concepção integral de ensino).
Pelo modelo do MEC, quem faz ensino profissionalizante nãofaz Enem. Ou faz com muito mais dificuldade.
Basta ligar os pontos.
Adiante:
A relação SEB-Pearson PLC é só a face mais recente de um processomais amplo.
Desde 2011, já haviam sido vendidos o pH, o Pensi e o Elite.Todos cursos-colégios do Rio de Janeiro. Rede privada.
O pH foi comprado pela Abril Educação. Que depois se tornouo grupo Somos Educação. Que também é dono do sistema Anglo, da rede ETB(escolas técnicas do Brasil), e também das editoras Ática, Scipione e Saraiva.Essas editoras fazem livros didáticos.
A venda de livros no Brasil representou, em 2017, algo emtorno de 5,2 bilhões de reais. Metade desse valor foi de livros didáticos ecompras pelo governo.
Os livros didáticos precisam seguir orientações do MEC. Quepromoveu a Base Nacional Comum Curricular, o Novo Ensino Médio e reformulou oEnem, alterando, com isso, a dinâmica desse mercado editorial.
Liguem os pontos.
A Abril Educação, como o nome indica, é parte da EditoraAbril.
A Abril não apenas publica o Guia do Estudante (queinclusive faz rankings de universidades), mas também as revistas Exame, Veja, eVocê S/A.
Todas as três são grandes defensoras da privatização daeducação. Todas as três louvam o mundo empresarial da educação, formado, dentreoutros, pelo Somos, pelo SEB e por demais conglomerados.
Os pontos, aqui, já viraram uma estrada.
Vamos que vamos:
O Pensi e o Elite foram comprados pelo grupo Eleva.
O Eleva é parte de um fundo de capital chamado Gera Venture.Esse fundo tem como principal investidor (isto é, na prática, o big boss) obanqueiro Jorge Paulo Lemann.
Lemann é apenas o homem mais rico do Brasil. Dono de uns 20bilhões de dólares.
É também dono da Heinz, do Burguer King, da Budweiser,dentre outras.
Para inúmeras publicações, o Eleva é dono de algumas das"melhores escolas do país".
Por que melhores? Porque estão entre os melhores colocadosno ranking do Enem.
Para nossa mídia, estar bem colocado no ranking do Enem ésinal de sucesso educacional.
O Pensi e o Elite ficam normalmente entre as primeirascolocações no Rio de Janeiro no ranking do Enem.
O Pensi e o Elite, dentre outros, forjam seus resultados noranking do Enem reunindo "elites" de alunos que só entram nas redes apartir do último ano do Ensino Médio.
A mídia hegemônica costuma achar que isso, porém, é sinal desucesso. E deseja esse modelo para o Brasil.
Liguem os pontos.
Quase finalizando:
Isso que descrevi acima não contempla nem perto de tudo querola nesse mundo.
Nem mencionei, por exemplo, o Kroton, maior grupo educacionaldo mundo (do MUNDO).
Vocês não acham bizarro que o Brasil, sempre extremamentecriticado pela sua educação, sempre extremamente criticado nos rankingseducacionais internacionais, seja o lar da maior empresa privada de educação DOMUNDO?
O Kroton foi fundado em Belo Horizonte. E já tentou comprara Estácio de Sá e o próprio SEB. Ambos os negócio só não foram pra frente porqueo CADE, à época, embarreirou.
Liguem os pontos!
Concluindo:
Enquanto as principais discussões educacionais giram emtorno do "Escola sem Partido" e congêneres (e são discussões, defato, fundamentais), esse movimento de gigantes vem, nos últimos 10 anos,promovendo uma nova face do imperialismo e do privatismo na educação.
Sim: é preciso recuperar o conceito de imperialismo.
Não se trata apenas de negócios. Se trata, também, de umaprofunda alteração nos sentidos da educação pública no país.
80% dos alunos do Brasil pertencem às redes públicas.
Esse negócio bilionário não está aqui apenas para alcançaros demais 20%.
Porque, não se enganem, a menina dos olhos de todos essesgrupos é a rede pública mais robusta. Especialmente universidades estaduais efederais, IF, Faetec e similares etc.
Prestemos atenção à UERJ. Ali é um grande laboratório dodesmonte que será seguido por ataques desses grupos.
A grande batalha da próxima década na educação será contra oprivatismo.
Impossível entender qualquer discussão sobre educação noBrasil, hoje, sem levar em conta esse gigantesco movimento de bastidores.
(Não coloquei links para as informações para nãosobrecarregar o texto de referências. Mas basta uma pesquisada na rede paraconfirmar todos os dados aí.)
EDIT: Dois outros aspectos que, acho, merecem sermencionados.
1) Esse mega-movimento do mercado educacional não seriapossível sem o acompanhamento da construção de um consenso que elogia, defende,valoriza esse movimento. Quanto mais defendermos, em escolas públicas, essalógica como a "correta", mais estaremos oferecendo ao carrasco não sónosso pescoço, mas o pescoço de uma concepção verdadeiramente libertária deeducação.
Em outras palavras: o que movimenta esse mercado é também umconsenso (cuja construção depende muito também da mídia hegemônica) que permitea naturalização do absurdo. Quando o absurdo fica naturalizado, seu combate setorna bem mais difícil.
2) Como construir, então, uma alternativa? Uma visãocontra-consensual? Contra-hegemônica? Certamente NÃO SERÁ a partir de uma visãoprogressista muito forte hoje, que defende, dentre outras coisas, questõesculturais isoladas do contexto sócio-econômico.
Digo isso pois, apesar de entender a imensa importânciadesse viés mais culturalista, entendo que essa lógica educacional privatista temsuficiente espaço para acomodar esse elemento de crítica cultural.
Não podemos esquecer um dado fundamental: UM DOS PRIMEIROSALVOS DO ESCOLA SEM PARTIDO, MAIS DE 10 ANOS ATRÁS, FOI, JUSTAMENTE, O SISTEMACOC. As apostilas eram consideradas muito esquerdistas. Outro alvo do escolasem partido foi o SISTEMA ANGLO, a partir da atuação de um professor que foimega perseguido por ser muito "petralha" em sala.
Estou falando de DEZ-DOZE ANOS ATRÁS.
A luta contra os retrocessos mais culturais (como o Escolasem Partido) precisa vir acompanhada da luta contra esse imperialismoprivatista. Senão vamos apenas trocar a frigideira pelo forno.
EDIT 2: Leonardo Custodio de Jesus me alertou que a Pearsonjá vendeu a Microlins e a SOS. Mas issonão muda nada do que escrevi, porque: 1) Essa venda se deu após todo o processoque descrevi (a transação se deu em meados de 2017; as fontes que vi eramanteriores a isso); 2) A interpretação geral ainda se sustenta, já que o grupoPrepara, que comprou essa fatia, está na mesma lógica. Mas agradeço, Leo, a indicação!Incorporei no texto.
EDIT 3: Fiz algumas mudanças pontuais no texto para corrigirquestões pontuais de interpretação (SEB e COC, por exemplo, não são a mesmacoisa; o COC era parte do SEB, que é, portanto, maior que o COC). O significadoe a interpretação geral, porém, continuam os mesmos.
EDIT 4: Fui convidado a ampliar o texto para publicação emum grupo. Aproveitei para incorporar mais alguns aspectos que vasculhei pelarede.
Para ficar em uma: o Somos, dono do pH, pertence ao fundoTarpon.
Um dos sócios do fundo Tarpon (e presidente do Somos),Eduardo Mufarej, é também fundador do movimento Renova Brasil.
O movimento Renova Brasil é, atualmente, o grandearticulador da campanha do Luciano Huck à presidência...
Esse buraco é bem fundo mesmo.
Por João Escosteguy Filho - professor do IFRJ, CampusPinheiral.