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Para a esquerda, só há solução na democracia. (Por Roberto Amaral)

Para a esquerda, só há solução na democracia. (Por Roberto Amaral)

10/03/2018 14h09 Atualizada há 8 anos atrás
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Uma das características mais distintivas da históriabrasileira é seu caráter recorrente, uma sequência de farsas e tragédias, umperverso processo circular que retarda o desenvolvimento em seus diversospatamares, seja econômico, seja político, seja social.

Não foi por acaso, e sem consequências para nosso futuropresente, que tenhamos conquistado a Independência sem a luta pelaindependência, negociando-a junto aos bancos ingleses e aos embaixadores doimpério britânico, do qual Portugal era um protetorado pouco levado a sério.

Não terá sido por mero acaso – muito menos por capricho dosdeuses – que tenhamos sido o único império do continente e a última nação alivrar-se da escravidão. Em seguida, instalou-se a República sem povo, semvoto, valhacouto da preeminência dos militares e da oligarquia rural que, comos olhos voltados para as bolsas de mercadoria de Londres, comandaria o País,emperrando seu desenvolvimento, até a “revolução” de 1930.

Coube a este movimento civil-militar fraturar a aliançaentre paulistas e mineiros, produtores de café e de gado, defensores daeconomia agroexportadora, desapartada dos interesses do País e, principalmente,do seu povo. E ainda hoje, o bancário que chefia a Fazenda sonha com o retornoa uma economia fundada na exportação de commodities, in natura.

Na raiz dos problemas sociais e estruturais que acompanham ahistória do país desde a colônia está o caráter alienado de sua classedominante, cujos interesses e ganhos jamais estiveram dependentes ou vinculadosao desenvolvimento nacional.

Nas primeiras décadas do século passado nossa população erapredominantemente rural, e nossa economia subordinada aos preços internacionaisdo café, avessas as “elites” econômicas e políticas à industrialização, eresistentes a qualquer proposta de desenvolvimento que pudesse ameaçar asestruturas econômico-políticas que asseguravam seu mando.

É sobre esse cenário que começa a se configurar o que sepoderia chamar de classe-média urbana (os funcionários públicos, os pequenos emédios comerciantes, a intelectualidade emergente, etc.) e os jovens militares.No ano da Semana de Arte Moderna (1922), se encontram os sentimentos moralistasda classe-média com a inquietação da jovem oficialidade simbolizada no Levantedo Forte de Copacabana (naquele mesmo ano), a primeira de uma série deirrupções militares que se disseminam ao longo das décadas seguintes, até ogolpe de 1º de abril de 1964, o vestibular da ditadura militar que só conhecerátermo em 1985. Com o levante, surge o “tenentismo”, de que são filhos a ColunaPrestes (1924) e mesmo a “revolução” de 1930, que se desdobra (1937) no EstadoNovo, a ditadura que vai até 1945.

A preeminência dos militares, avalizadores dos governosoligárquicos, vem de longe. Ela se estabelece, institucionalmente, a partir dogolpe de 15 de novembro de 1889 – um acontecimento dos militares, só deles,isto é, sem povo e sem republicanos, que, ao derrubar a monarquia, instaurou aRepública dos grandes proprietários de terra. A República curatelada, arrimadaem um processo eleitoral censitário e corrupto, buscava legitimidade em umalistamento que não abarcava nem as camadas médias da população. Em 1894, naprimeira eleição direta para presidente da República, o candidato vitorioso,Prudente de Morais, elegeu-se com cerca de 270 mil votos, o que representavamenos de 2% da população brasileira.

Essa democracia sem povo e sem voto sobreviverá até 1930,ano da revolução varguista que se transformará em ditadura em 1937 e seestenderá até 1945, quando Getúlio Vargas, o ditador, é deposto por um golpemilitar arquitetado e executado pelos mesmos generais que o haviam levado aopoder discricionário.

Essa introdução tem o propósito de pôr de manifesto oencontro do combate despolitizado à corrupção com os golpes de Estado, de basemilitar ou não, como o de 2016. Um dos temas centrais do levante de 1922 era adenúncia da corrupção eleitoral e o pleito de um sistema eleitoral “justo”, ouseja, sem fraude. Estabelece-se entre os militares, majoritariamente, a crençade que os males do País residiam na corrupção, tema que logo foi absorvidopelas correntes políticas de direita, que dominariam o debate político, epassam a frequentar os quartéis.

Assim, o combate à corrupção se transforma em instrumentopolítico de apelo à ruptura constitucional, invocada como necessária à suaerradicação, quando seu objetivo tem sido o de impedir o ascenso de governoschamados de “populistas” por ensejarem a emergência das massas.

O azimute que unifica as forças conservadoras (autonomeadascomo “liberais”) é a “moralização dos costumes políticos” (cortina de fumaçapara o golpismo) que, a partir principalmente dos anos 50 do século passado,passa a contar com a ação da grande mídia. Seu papel, de sempre, mas que seacentua principalmente após a redemocratização de 1946, é a construção dodiscurso ideológico unificador do pensamento conservador-reacionário, fundadono combate à corrupção, na manipulação dos conceitos de ética, liberdade edemocracia, na renúncia ao projeto de construção de um país independenteeconomicamente e soberano politicamente.

Cumpre-lhe (1) criar as condições subjetivas para o golpe(de que a direita lança mão sempre que se vê ameaçada em seus interesses) e,(2) na sequência, legitimá-lo, mediante a construção autônoma da narrativa: em2016 (contra o lulismo), como em 1954 (contra Vargas, o homem e o que elerepresentava), como contra Juscelino Kubitschek nos idos do desenvolvimentismo(1956-1961), como na preparação de 1964, contra o homem João Goulart e o queele representava de promessa de desenvolvimento nacional autônomo, distribuiçãode renda e de emergência das massas, o eterno fantasma a povoar os pesadelosdas classes dominantes.

Não há nada de novo sob o céu.

A partir do governo constitucional e democrático de Vargas(1951-1954) e até a derrocada do lulismo (2003-2016) registra-se o avanço dopensamento de centro-esquerda, caracterizado pela emergência das massasassociada ao projeto de desenvolvimento nacional autônomo, teses inaceitáveispara a direita brasileira, sobretudo pelas chamadas “elites” econômicas,rentistas, encasteladas na Avenida Paulista, de onde comandam a sonegação deimpostos, a corrupção e o suborno. Seguem-se os golpes e a mesma justificativa:o combate à corrupção.

A vitoriosa campanha contra Vargas (1954) centrava-se nadenúncia de um “mar de lama” que correria nos inexistentes “porões” do Paláciodo Catete, sede do governo.

O quinquênio de Juscelino foi anatematizado como reino dacorrupção, desde o primeiro dia, e voltou a ser alvo de inquéritos na ditaduramilitar. Nada, porém, como no caso de Vargas, seria comprovado, mas opresidente, cuja posse fôra contestada pelos militares em uma tentativa degolpe (novembro de 1955), teve de enfrentar dois levantes militares e cerca de10 pedidos de impeachment. Seu sucessor, o candidato da direita, Jânio Quadros,o efêmero, carregava como símbolo de campanha uma vassoura e como mote “acabarcom a roubalheira”.

João Goulart já era combatido, como “corrupto” e chefe de“pelegos” desde seu tempo de ministro do Trabalho (1953-1954) e desde sempreacusado de “populista” pois seu grande “crime”, insusceptível de sursis, eraser “o herdeiro de Vargas”, o cadáver que resistia à morte política. Em seugoverno avançaram os esforços visando à emergência das massas e à efetivação deuma política externa independente, herdada, aliás, de seu antecessor, eexatamente por essa razão incompatibilizado com as correntes mais reacionáriasde seu bloco de apoio. A longa campanha contra Jango (iniciada mesmo contra suaposse, que os militares tentaram impedir em 1961) acusava seu governo desubversivo e corrupto.

A denúncia da corrupção é o aríete sempre usado, até aquicom sucesso, pela direita brasileira, para inviabilizar os governosprogressistas.

Em 1963, assim como Lula em 2017, Juscelino Kubitscheckaparecia com 43,7% das intenções de voto para as eleições presidenciais de1965. Tem início, então, uma grande campanha dos grandes jornais da época (jálá estavam O Globo e o Estadão) acusando o ex-presidente de corrupção. Adenúncia, sem provas, mas cheios de “convicção” seus detratores, era umapartamento em Ipanema, no Rio de Janeiro, de propriedade do empresárioSebastião Paes de Almeida, alugado por JK. Mas, diziam os detratores, oproprietário real era JK, e o milionário Paes de Almeida um mero ‘laranja’.

Provas? Dona Sara, esposa de JK, havia sido vista noapartamento durante as obras e presidira a decoração. Implantado o golpe de1964, JK foi humilhado em inumeráveis inquéritos dirigidos por coronéis semhistória, e foi cassado. E as eleições diretas de 1965 se transformaram nasindiretas de 1985.

A campanha contra JK nos ajuda a compreender a onda de ódioe intolerância, de ódio de toda sorte, de ódios vítreos e de ódios hepáticos,de ódio mesmo, puro ódio, como aquele que se alimenta no preconceito e nairracionalidade, o ódio de classe e o ódio que simplesmente não se explica, massempre um ódio mortal, violento e virulento, que procura destruir com opolítico, o símbolo, o líder, o grande eleitor, e, se necessário, o homem.

Se a arma da direita é, sempre foi, o golpe de Estado e aditadura, não há, porém, para o povo, para os trabalhadores, para o país, paraa política e para a economia, alternativa fora da democracia representativa.Não há saída fora das eleições, que, ao invés de esvaziar ou pôr em questão,devemos defender com unhas e dentes, com a consciência de que estaremosdefendendo a única saída de que dispomos.

Roberto Amaral - escritor e ex-ministro de Ciência eTecnologia.

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