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VAMOS FALAR DE RIO. VAMOS FALAR DE FALSA GUERRA ÀS DROGAS. VAMOS FALAR DE ARREGO. DE MILÍCIA. DE POLÍTICA. DE POLÍCIA... DE MARIELLE.

VAMOS FALAR DE RIO. VAMOS FALAR DE FALSA GUERRA ÀS DROGAS. VAMOS FALAR DE ARREGO. DE MILÍCIA. DE POLÍTICA. DE POLÍCIA... DE MARIELLE.

21/03/2018 07h25 Atualizada há 8 anos atrás
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Esticando um pouco a análise, tem mais uma coisa importanteque a gente precisa compreender: no Rio, há várias facções criminosas, comestratégias e comportamentos diferentes. Algumas delas são amigas da polícia eevitam o confronto com policiais (uma dessas, inclusive, se chama “amigo dosamigos – ADA, o nome já diz tudo). São, basicamente, sócias da PM.

Há uma outra facção, o famoso Comando Vermelho (CV), que nãogosta muito de negociar com a policia e prefere manter o domínio dos seusterritórios na base do confronto, da guerra. Essa facção é historicamente maishostil à negociação. Sendo assim, nas áreas de domínio do CV, costumam ocorrerfrequentes confrontos com a PM. Percebam que esse tipo de confronto, entrePolícia e CV, não se dá porque a polícia está tentando neutralizar o tráfico,mas sim - repito - pelo controle do tráfico. Tem algumas peculiaridades nessasregiões que valem à pena serem citadas aqui: em muitos desses confrontos, a PMapreende armas, drogas e traficantes. Boa parte das armas e drogas sãorevendidas para facções amigas e uma pequena parte apresentada na delegaciapara justificar a operação. Dizem que cada fuzil é revendido por mais de 50 milReais. E o que eles fazem com os traficantes presos? Muitas vezes, dependendoda relevância do criminoso, entram em contato com a facção e cobram uma espéciede resgate. Outras vezes, eles simplesmente matam o traficante e ficam com todoo ouro que o cara carrega consigo (policiais costumam chamar isso de prêmio deguerra). Mais um detalhe: por que que vocês acham que traficante anda com tantoouro no corpo? Isso mesmo, para caso seja pego, consiga abrir uma negociação emtroca do que carrega no corpo.

Além dos confrontos e negociatas acima, ainda há a guerraentre facções. uma guerra que é muito interessante para os grandes traficantesde arma e para os vendedores do varejo. Vocês já estão imaginando um pouco doque é a vida na favela, né? É, isso mesmo, um inferno.

Por fim, na última década, tivemos o surgimento de umaterceira facção para jogar mais gasolina no incêndio: as milícias.

E como é o funcionamento das milícias? Seria justo chamá-lasde facções criminosas?

Respondendo à primeira questão, basicamente, são facçõesformada por policiais militares e civis, agentes penitenciários, bombeiros eex-militares. Quanto à segunda questão, obviamente, são grupos criminosos quese formaram para disputar território com as tradicionais facções que comandam otráfico de drogas. Acontece que as milícias são facções que vão para além dosimples comércio de drogas. Eles transformam os territórios conquistados emverdadeiros Estados paralelos. Controlam e monopolizam a venda de água e gásnas regiões dominadas. Mandam no transporte coletivo ilegal. Detêm o monopóliodo fornecimento de serviços de TV a cabo e internet. Cobram pesados impostosdos comerciantes e, por fim, aqui talvez um dos pontos menos explicitados pelagrande mídia, formam currais eleitorais nas regiões que dominam. Isso querdizer que só faz campanha eleitoral nas comunidades sob controle da milícia ospolíticos que possuem ligação com o crime organizado. Percebam a gravidade e aameaça à democracia que essa facção nos traz. Inclusive, muitos dosparlamentares cariocas são eleitos por milicianos. Outros tantos no parlamentodeclaram apoio quase que explícito às milícias. Um exemplo de apoio parlamentarao crime organizado é a atuação da família Bolsonaro: um dos integrantes doclã, o Deputado Estadual Flávio Bolsonaro, além de ter votado contra a CPIdestinada a investigar o crime organizado por milicianos no Rio de Janeiro,chegou a defender, pasmem, a legalização das facções criminosas organizadas pormilicianos. A situação é extremamente crítica e quem se coloca no caminhodestes esquemas corre o risco de perder a própria vida. A democracia está sobameaça.

A nossa Marielle ousou desmascarar todo o esquema acima. Foiuma guerreira que conhecia de perto tudo que está escrito no texto -- e muitomais. Uma mulher negra, cria da favela que, com muito esforço, se graduou emsociologia na PUC-RJ e se tornou Mestra em Administração Pública pela UFF.Lutou e estudou para transformar a vida da favela. Denunciou a falsa guerra.Não se calou. Foi eleita a quinta Vereadora mais votada da cidade. Foi a voz dafavela. Uma voz que não irá se calar.

Marielle, iremos defender seu legado e preservar suamemória.

Por David Duccache.
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