Desde 1989, quando Luladisputou a presidência do Brasil pela primeira vez, presencio seus discursos, amaioria das vezes em campanhas políticas. O penúltimo momento foi em PortoAlegre, no último 24 de janeiro, quando um clube de amigos celebrou a sentençafacciosa do herói fake do Brasil, Sérgio Moro. Na noite de ontem, nunca o tinhavisto tão sereno, tão senhor de si, em um discurso sem ódios, sem rancores, masfirme. Deu nome aos bois e aos inimigos, celebrou amigos e velhos companheiros,saudou a heroína que caiu assassinada no dia anterior, Marielle Franco, e anova liderança presente ao seu lado, Manuela D´Ávila, pre candidata apresidente pelo PCdoB.
Lula precisou de menos detrinta minutos para atravessar quinhentos anos de história do Brasil e daAmérica Latina. Citou as conquistas das esquerdas desde a vitória de DanielOrtega, na Nicarágua, em 1980, e chegada ao poder dele próprio, em 2002, OsKirchner na Argentina, Eduardo Correa, no Equador, Bachelet no Chile, eenfatizou Evo Morales, primeiro índio a governar a Bolívia.
O ex-presidente criticou aselites brasileiras, ao dizer que a pequena República Dominicana criou suaprimeira universidade em 1538, enquanto no Brasil ela só chegou quatrocentosanos depois. Segundo Lula, aUniversidade Brasil foi criada às pressas em 1920, “porque o rei da Bélgicavinha aqui e precisavam lhe dar um título de Doutor Honoris Causa”. Luladeclarou que durante o seu governo foram criadas mais vagas universitárias doque os outros governos em quinhentos anos. “Não é pouca coisa um candidato quenão tem diploma universitário passar para a história como o presidente que maisfez universidades neste País”, sentenciou o líder petista.
Em um dos momentos maiscomoventes do seu discurso, Lula mencionou a iminência de seus algozesdecretarem sua prisão. “Querem me prender, para calar a minha voz? Eu falareipela voz de vocês! Querem me prender numa cela, para eu não poder andar? Euandarei pelas pernas de vocês! Querem me prender para minha cabeça não emitirpensamentos? Não tem problema, eu pensarei pela cabeça de vocês! Querem meprender para eu não continuar na luta? Vocês continuarão a minha luta!”
É difícil analisar como seconstrói um grande líder, até mesmo definir o que é um grande líder, mas eu nãotenho dúvidas de que estava ali, diante da maior liderança política brasileirados últimos anos. Não sei se maior ou menor que Getúlio Vargas, até porque nãovivi sua época para comparar. É difícil também imaginar como ele suporta ofardo, aos 72 anos, depois de ter realizado o maior ciclo de mudanças no Brasilem 8 anos de governo, e ver sua honra achincalhada diuturnamente por uma eliteque revela sua hipocrisia a cada gesto, ter perdido sua Marisa na forma queperdeu, ver seu legado triturado dia após dia por um governo corrupto egolpista, ver um judiciário fantoche querer justiçá-lo, como já antes fizeramcom Tiradentes, Lampião, Conselheiro, e tantos outros.
Talvez as respostas claras nãoexistam. Talvez seja necessário recorrer ao imaterial, ao metafísico, paraexplicar Lula. Eu devo me sentir feliz por ter estado tão próximo dele,te-lo visto e ouvido com meus própriosolhos e ouvidos. Não creio que ainda viverei para ver outro líder tão completo.
Everaldo de Jesus - Jornalista, Mestrando em história UNB.