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Flores de plásticos não morrem

Flores de plásticos não morrem

26/01/2019 às 16h04 Atualizada em 26/01/2019 às 21h20
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Flores de plásticos não morrem

Teve um tempo em que fuicoroinha na Igreja Católica e participava de grupos de jovens que se reuniamtodos os sábados a noite na Casa da Criança I. Escola administrada pela cúria diocesanade minha cidade no interior da Bahia. Tempos de lembranças bonitas. De um períodoonde era possível sonhar com um país melhor para todos. E foi participando dasmissas, ajudando na sacristia que conheci Padre Pedro. Que mais tarde veio setornar um amigo. Tanto que na sua formatura no Curso de Direito em Recife, eleconvidou a mim, Alberom e Rogério (Shell). Fomos os únicos da cidade aparticipar. Foi também a primeira vez que tive que usar um paletó. Peguei emprestadopara poder ir.

Pedro viajava pelas cidades dadiocese para rezar missas, fazer batizados e celebrar casamentos. Em uma dessasidas, ele perguntou se eu o poderia ajudar. Eu disse que sim e lá fomos nós. Euna minha primeira viagem para este tipo de trabalho. Para mim, cada curva daquelaestrada de chão era algo novo. De tão estreita, algumas vezes paramos paraoutro carro passar no sentido contrário ao nosso. Até hoje tenho lembranças depessoas e lugares por onde passei.

A cidade escolhida foi CoronelJoão Sá no sertão da Bahia. Já ao chegar, por volta das 18h, fomos recebidoscom um jantar. Tinha queijo de coalho, pão aguado, macaxeira, inhame e ovos.Confesso que depois desse dia sempre que vou colocar ovos na frigideira, lembroque ele tem que ser daquele jeito, com a gema escorrendo por sobre o alimento. Aquelasenhorinha foi um amor de pessoa durante a semana. No retorno, obriguei minhamãe a fazer do mesmo jeito. Ninguém até hoje fez igual.

Também descobri naquela noite.Mais precisamente às 22h, que as luzes de toda a cidade eram apagadas. Naqueletempo não havia energia elétrica distribuída pela empresa estatal por lá. Aalimentação era feita por um gerador a óleo combustível.

Mas a grande lembrança quetrago até hoje daquela viagem é a de uma foto.

Era domingo. Último dia denossa estadia por lá. Já tínhamos participado de várias missas pelas roças eescolas da região. Pedro tinha feito centenas de batizados e eu era o responsávelpor escrever cada um dos nomes daquelas crianças. Tomará que a pessoa da cúria emPaulo Afonso tenha entendido as letras e ajustado o português.

Pois naquele dia, teve a missadominical e logo após, houve um casamento. E casamento todos sabem, é uma festa!

Aquela igreja pequena quasenão cabiam todos os convidados e curiosos. Um calor arretado tomou conta dolocal, mas ninguém saía de lá. Foi o evento do dia e todos queriam ver. E euclaro, fui o sacristão.

A casa da noiva ficava emfrente da “casa dos padres”. E enquanto Pedro arrumava as coisas, que iam demalas com roupas a presentes que ganhou como, galinhas de capoeira vivas, dúziase dúzias de ovos, latas de leite ninho repletas de doce diversos, queijos...Era muita coisa a caber naquele fusca. Eu fui até a janela da casa do noivopara ver a comemoração. Eles estavam na sala. Era pura curiosidade a minha. Aquelemomento era mesmo lindo. A noiva sorria entre alegre e envergonhada, sabe-se láo porquê. O noivo era felicidade pura estampa no rosto. Novamente, sabe-se lá oporquê.

De repente alguém chama paratirar uma foto. Todos os presentes se juntam para pose. O fotografo pede para quetodos respirem que vai ser agora.

- Peraí. Gritou um senhor.Todos se olharam para ver o que estava acontecendo.

O fotografo, já puto e commedo de perder a “pose”. Abaixa a máquina e fica esperando para ver o que é.Aquele homem vai até a geladeira. Estende a mão, pega um arranjo de flores de plásticoe entrega a noiva. Ela recebe com um sorriso lindo no rosto.

- Vai ficar linda! Ouve-se umavoz feminina. Talvez tinha sido a mãe da noiva ou sua sogra.

Todos se abraçaram novamente.A moça deu mais um sorriso e ouviu-se o som vindo da câmera fotográfica. Estava guardadoo registro da pureza de uma sociedade que parece não mais existir.

Torço para que aquelafotografia tenha sido revelada, guardada e que tenha resistido ao tempo. Coisasassim já não vemos mais.

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