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É melhor escapar fedendo do que morrer cheiroso

É melhor escapar fedendo do que morrer cheiroso

21/04/2019 às 12h20 Atualizada em 21/04/2019 às 12h31
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É melhor escapar fedendo do que morrer cheiroso


Para Lelé Coltz

Chiquinho era um cabra vistoso.A mulherada ficava de olho quando ele passava na rua. E todos os dias ele saia de sua casa pela manhã para ir ver sua criação de porcos. Ele era marchante. Ecomo era costume seu, ia ver como seus animais estavam. E colocar comida paraeles.

Além da criação de porcos,Chiquinho também vendia no final de semana na feira, carne bovina. Essas elecomprava de Zezinho, meu primo, que deixava lá e só ia buscar o dinheiro davenda no final do dia após a apuração de tudo que era comercializado.

A tarimba dele no mercado públicoera uma das mais organizadas e limpa. Não se via sujeira nela. O homem faziaquestão de deixar tudo organizado. E talvez tenha sido este o motivo de tantascompradoras preferirem ir lá adquirir carne para cossunir durante a  semana.

Chiquinho muitas vezes ouviagracejos de algumas delas. Mas ele levava na brincadeira. Sempre soube o seulugar. Ele sabia que não se deve mexer com a mulher de outro homem. E mesmo queumas delas lhe olhassem diferente, ele sempre abaixava os olhos nestes momentos.

Júlia era uma mulher jovem elinda. Tinha casado já fazia uns três anos com Tonhão. Homem de estatura média,mas que botava medo em muita gente. Contam que seu retorno de São Paulo teriaacontecido após deixar uns três mortos por lá. Os vizinhos falavam a boca miúdaque os sujeitos tinham mexido com sua esposa e ele não os teria perdoado portal afronta.

E essa história meu amigosabia e por isso mesmo, nunca olhava direto para ela. Mesmo assim, já tendosido envolvida em problemas, Júlia muitas vezes quando ia entregar o dinheirodas compras, fazia questão de tocar nos dedos de Chiquinho. Que tremia de medo.

Pedro, vizinho de venda sempreteve ciúmes das vendas que aconteciam ao seu lado. Sua mercadoria só saiaquando a do outro acabava. Em algumas semanas sobravam muita carne e o prejuízoera grande. Ele tinha que salgar tudo e vender por um preço menor na próximafeira.

Ao ver, por várias vezesaquela cena da mulher de Pedrão dando ousadia a Chiquinho, o malfazejo teve umaideia. Chamou seu filho em uma tarde de quarta-feira e mandou ir deixar porbaixo da porta da casa do “corno” um bilhete que estava escrito, “se tu, que jáfoi chifrado em São Paulo, não quiser ser novamente aqui no Juá, toma conta de tuamulé que todo sábado tem um macho de olho nela na feira”.

Ao pegar aquele bilhete,Pedrão feito um touro raivoso espumava de raiva. Quem seria o homem capaz demexer com sua mulher? Ele que fez com que todo mundo do povoado soubesse dashistórias vividas na capital do Sudeste.

Ele passou o resto da semanatentando saber quem teria mandado o bilhete. Ficava olhando cada uma daspessoas que passava em frente da sua casa. Nunca tinha feito isto. E de tantoficar sentado em um tamborete na porta, chamou a atenção da mulher. “O quedanado deu em tu que não sai mais dessa porta homem?”. Ele não respondia nada. Estavaenvenenado pelo ódio.

Como todos os sábados, suamulher saiu para fazer a feira. Dessa vez, como nunca fez antes, ele a seguiude longe. Nunca tinha feito curso de espião, nem por correspondência, masseguia furtivamente os passos de Júlia.

Ela passou pelas bancas deverduras. Passou pelas bancas de sereias e as de gêneros alimentícios e ele nãoconseguiu ver nada de diferente ou suspeito. Já estava achando que o bilheteera mesmo uma invenção para colocar ele contra sua amada. E não conseguiaimaginar quem teria feito aquilo.

Ao chegar ao mercado dascarnes, a mulher passou em frente de uma loja que tinha um espelho grande nafrente. Daqueles “chama mulher”. Todas quando veem um espelho param diante delee se olham, não invariavelmente, dão uma olhada na bunda para saber se aumentoualguma coisa. E foi aí que o sentido aguçado do homem lhe despertou novamenteum olhar mais apurado.

Lá foi Júlia direto para olocal que, desde que voltou com o marido, ia todos os sábados. E como semprefez, pediu meio quilo de fígado de boi, três quilos de carne chã de dentro emeio quilo de rim de porco que servia de petisco para os domingos vendo ofutebol pela TV junto com o esposo.

Naquele dia ela estava maislinda do que nunca. Tinha colocado em top branco justinho que delineava muitobem seu busto. Uma saia curta, colorida, daquelas que as mulheres hippiesgostam de usar. Usava uma sandália baixa, no estilo priquitinha. Estava lindade morrer!

Chiquinho que nunca antesolhava direto para Júlia, naquele bendito dia, ao ver tanta lindeza a suafrente, achou de olhar. Na verdade, ele admirou o que via. Olho aquele corpovestido de cima a baixo. Distante, a uns cinco metros, por traz das mantas decarnes penduradas, Pedrão estava desconfiado que encontrara o cabra certo.

Como sempre, Júlia estendeu amão e dessa vez quem pegou carinhosamente foi o nosso marchante a mão daquelamulher, que sorriu. E como que em um passe de mágica, surgiu Pedrão gritando aolado da mulher, “então é você cabra safado, que anda de olho em minha mulher?”.Assustado e tremendo de medo, ouse-se uma voz gaguejando, “eu, eu, eu, não. Queisso homem. Tu tá vendo coisas”. Foi aquele quiproquó. Correria pra todo lado esó ficou a turma do deixa disso e alguns curiosos.

Com uma peixeira na mão, quemais parecia uma espada de tão grande que era, ouve-se a indagação em alto ebom som, “tu ainda vai mexer com a mulher alheia cabra?”.

E Chiquinho que já suava feitoum condenado a morte, olha nos olhos do marido enraivecido e diz, “tu tá édoido. Nem de mulher eu gosto”. A surpresa foi geral. O espanto se deu no rostode todos os que ali estavam. Ninguém nunca ouviu antes que ele era chegado.Desarmado os ânimos com aquela revelação, Chiquinho recebeu um aperto de mão dePedrão, que até lhe pediu desculpas pelo ocorrido. Colocou as compras na bolsa,pegou sua esposa pelo braço e saiu dali.

Incrédulo com o que vira eouvira, Beto, vizinho do ‘afeminado”, e que passou a infância brincando juntosperguntou, “que história da boba serena é essa que tu não gosta de mulher? Eununca soube disso!”. Olhando para os lados e buscando saber se Pedrão aindaestava por perto, Chiquinho sapeca, “é melhor escapar fedendo do que morrercheiroso”.

Nosso personagem continuavivinho da silva até hoje.

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