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Como vencemos a Gincana para o Polivalente

Como vencemos a Gincana para o Polivalente

22/03/2019 às 14h53 Atualizada em 23/03/2019 às 10h23
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Como vencemos a Gincana para o Polivalente


Eu sou do tempo em que nós íamosa escola para estudar. Mas a diversão com os amigos que conhecíamos a cada anoera, e foi, o que de melhor ficou. Da quinta a oitava série, como era aclassificação antes, eu estudei na Escola Polivalente na cidade de Paulo Afonsona Bahia. Deste período existem boas histórias.

Uma delas aconteceu no ano de 1977.Naquele ano a Igreja Católica, para mobilizar a juventude, resolveu criar uma “GincanaEstudantil”. Ela aconteceu no mês de maio, o mês de Maria. Foi montado um palcoem frente da Catedral de Nossa Senhora de Fátima e durante uma semana, asnoites, estivemos lá.

Participaram o Colégio Sete deSetembro, onde só estudavam os “filhos dos ricos da cidade”, o CIEPA - Centro Iintegrado de Educação de Paulo Afonso, com os alunos de idade mais avançada, eo COLEPA – Colégio Paulo Afonso da Chesf, que tinha toda a estrutura damesma para competir e a Escola Polivalente, de ensino público e onde estudavam os“filhos dos pobres”.

Para participar da equipecomposta por 10 alunos, a direção da escola deixou a responsabilidade entretodos nós. E já que isto significaria deixar de assistir algumas das aulas, aturma do matutino resolveu assumir a empreitada. Não deixando de fora quem dovespertino quisesse participar. A verdade é que a comunidade estudantil, comoum todo, resolveu aderir e a escola, literalmente, parou em função do “jogo”.

Nós sabíamos que as nossaschances não estavam no poder do dinheiro do Colepa/Chesf ou do Sete deSetembro. Muito menos na força dos técnicos estudantes do CIEPA. Nós só teríamosalguma chance de vencer se nos uníssemos e usássemos o que nunca faltou aosestudantes do polivalente, a inteligência.

Todos os dias tínhamos quecumprir tarefas dadas na hora do evento e recebíamos outra, com o grau dedificuldade ainda maior e que tinham pontuação diferenciada das demais. Naqueleano, não deixamos de realizar uma única na noite. E isto nos deixava de igualpara igual com as outras equipes. Nós estávamos lutando com os gigantes e mesmoassim, não éramos deixados para trás.

Três tarefas definiram anossa vitória.

A cabeça raspada

Foi solicitado que cada grupolevasse no dia seguinte um aluno com a cabeça raspada. Saí naquela noite comuma certeza: passar pela manhã em todas as salas e perguntar quem topava atarefa. Assim foi feito.

Ao entrar na quarta sala edepois de já estar muito preocupado, pois ninguém tinha tido a coragem. Aofalar, um garoto se levantou e disse que topava. “Pelo polivalente vale tudo.Não podemos perder por isto”. Ficamos todos surpresos pois era o mais jovem dasala. Ele foi informado que teria que ir em sua casa, trazer a mãe ou o paipara confirmar e só assim, aceitaríamos. Ele concordou e saiu em busca.Enquanto isto continuamos nas outras salas sem ter sucesso. Já estava chegandoao meio dia quando aquele garoto entrou na escola de cabeça raspada esurpreendeu a todos quando disse que não tinha ido em sua casa. Que só iria ànoite, após a apresentação das tarefas. Sem ele, eu teria que raspar a cabeça.Com ele ganhamos os pontos necessários.

O Carro

A coordenação da gincana pediuum carro pintado nas cores verde e amarelo. Tinha que ser 50% de cada.

Minha mãe tinha um fuscaamarelo. Seria fácil para nós. Mas não foi. Dona Regina Roque, que Deus a tenhaem um bom lugar, disse “não”. Era a manhã do dia da entrega da tarefa. Eu emais um casal de amigos do grupo saímos preocupados com a situação. A solução?Ir nas oficinas e tentar conseguir com uma alma caridosa um carro para usamosna tarefa. Indo para a escola, encontramos uma oficina que ficava onde agoraestá o Supermercado Suprave. Conversamos com o mecânico proprietário. Eledisse, “emprestaria com certeza. Mas o pessoal do Ciepa já passou aqui a umameia hora e eu me comprometi com eles. Mas se eles não aparecerem para buscaraté o meio dia, eu passo para vocês”. Foi um misto de alegria e preocupação. OCIEPA e o COLEPA estavam disputando diretamente conosco. Mas foi a frase finaldele que me deu uma ideia. Ao sair, fomos ao Polivalente, chamei três alunos deconfiança e pedi para arrumarem blusas do CIEPA, irem até o mecânico e dizerque podiam passar o carro para outro. Ao mesmo tempo, entramos em contato com ogrupo do Sete de Setembro, informamos do carro que estava sobrando e que elespodiam ir lar buscar. Porque isto? O Colégio estava em 4º lugar e não nos alcançariamais. Assim foi feito. Fiquei sabendo que foi uma confusão da zorra quando aturma do CIEPA ficou sem o carro e não teria como ter os pontos.

Voltando a minha mãe. Chamei omaior número de pessoas que podia e voltei a minha casa para implorar que eladeixasse pintar o carro. Teve choro de quase todos, até que ela concordou. Massó se fosse com tinta “Guache”. E assim foi feito.

Lembram do carro que foi parao Sete? Chegou empurrado e sem motor. Guardem essa informação.

Feijão

A Gincana também servia paraarrecadar alimentos a serem distribuídos as pessoas carentes da cidade. AIgreja aproveitou para fazer este trabalho social.

Pedi aos estudantes que trouxessemum quilo de feijão a escola no outro dia. Eles fizeram. Muitos trouxeram maisdo que um quilo. Já ia dar 11h quando soubemos que os estudantes do Colepatinham arrecadado muito mais do que nós. A empresa tinha entrado diretamente nojogo. Era a força do mais forte agindo. Foi quando lembrei que Pia, um amigo,era filho de um ex-vendedor de feijão e que, após a morte do seu pai, os dois depósitosque ficavam na Rua São Francisco estavam fechados, mas lotados de mercadoria.Naquele ano, ele estava namorando uma garota que estudava na escola. Ia láquase que diariamente. Então, fui até ele e fiz o pedido de que nos conseguissealguns sacos. Ele disse, “podem pegar quantos quiser. Só há um problema, achoque estão quase todos estragados”.

Ao chegar ao deposito o cheiroera muito ruim. Mesmo assim, não tínhamos outra alternativa. Como só precisaríamosentregar a tarefa no último dia, pensei, “vamos colocar o feijão ao sol”. E omelhor local seria na escola. Não foi difícil convencer professores ediretoria. Todos já estavam impactados com o nosso desempenho na gincana.Abrimos os sacos que vieram no caminhão. Espalhamos por todos os cantos possíveisdentro do colégio em que o sol batesse. Duas a três horas depois, tinha gorgulhosubindo até pelas paredes. Enquanto uma equipe ficou tentando retirar os bichoscom vassouras, todo o restante estava focado nas outras tarefas.

No último dia da Gincana, chegamosna cúria diocesana, ao lado da Igreja com duas caminhonetes cheias de sacos defeijão. Alguém deve ter batido a língua de como estavam as nossas leguminosas.Na chegada, fui intimado a falar a verdade e falei. Estávamos com feijão como tinhampedido.

No enchimento dos sacos naescola, eu pedi para colocarem meio saco do feijão furado e completar com meiosaco do feijão arrecadado pelos estudantes. Como a pesagem só se daria ao finalda competição do dia, não deixei que abrissem antes os sacos. Foi uma noitenervosa.

Terminado tudo, estávamos nadisputa direta com o COLEPA, o Colégio Sete de Setembro e CIEPA já não tinhamnenhuma chance e o mais bonito, torciam por nós. A pesagem do feijão era definidorapara a vitória nossa. Se não aceitassem o nosso, a derrota viria.

A coordenação da Gincanaestava braba conosco. Só autorizou que os Capitães das Equipes entrassem na cúria.E assim foi feito. Eu lembro de frases do tipo, “isso não é correto”, “seestiver misturado, não é feijão”. E ao ouvir a frase, me veio a imagem do carropintado sendo empurrado por estudantes. “Se carro sem motor é carro, porquefeijão furado não é feijão?” Perguntei. O silêncio na sala foi tão grande quese ouvia a conversa das pessoas na frente da Igreja. Também percebi que mesmo ofeijão estando furado, ele poderia ser consumido. E que a parte superior decada saco estavam de boa qualidade. Com a ajuda dos capitães do Sete e doCIEPA, a tarefa foi aceita. Pesaram os sacos de feijão de cada escola e aofinal saiu o resultado. Os esforços de cada um dos estudantes da escola queentrou na disputado sendo vista pelos demais como a que primeiro seriaderrotada, não foram em vão. Nós fomos os vencedores daquela gincana e o diaseguinte é até hoje o dia de maior significado em minha vida de estudantes.

Às 08h da manhã, uma turma deestudantes veio à minha casa. Eu ainda estava dormindo e fui acordado por eles queinvadiram o meu quarto. O troféu tinha ficado comigo para entregar a diretoria.Na escola, todas as turmas estavam preparadas este momento de festa. Foi também a primeira vezque meu pai, Argemiro Roque, saiu de casa por estar se sentindo feliz eorgulhoso por um trabalho que eu estive diretamente coordenando. Tenhoainda hoje a imagem dele sentado comigo e vários estudante no meio fio emfrente ao CEAPA (mercado público), esperando a ordem para irmos encontrar todos. A chegada aescola naquele dia, até hoje, ao lembrar me emociono. Aquela multidão nosesperando e feliz. Foi o dia que o improvável venceu aqueles que tinham acerteza da vitória.

Ao chegar no portão de acesso,os mais animados me colocaram nos ombros e aos gritos de “hei, hei, Dimas énosso Rei” gritado pela multidão eu vi lagrimas nos olhos do meu pai.

Durante o dia não houve maisaulas. Foi de diversão e congraçamento entre todos.

Um dia que o tempo não vaiapagar. A história deve ser preservada.

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