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Paulo Afonso, BA
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Eu e meu velho All Star

Eu e meu velho All Star

04/02/2019 às 12h29 Atualizada em 04/02/2019 às 12h32
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Eu e meu velho All Star


Quando você é pobre sabe queem algum momento essa sua condição lhe é esfregada na cara. Muitas vezesdiariamente, por você se sentir a pessoa mais pobre do planeta, o que em si jáé um sentimento de humilhação existe primeiro dentro de você. E não adianta,isto lhe persegue por um bom tempo da sua existência. E só há um remédio paraisto, é você assumir a sua condição social. Só assim haverá a sua liberdadeinterior.

Na minha juventude eu tinhaduas amigas inseparáveis, Neide e Neidinha. Éramos tão próximos que mesmo eu játendo casado, elas viviam me buscando em casa ou eu a elas para batermos perna,como se fala aqui no interior da Bahia, quando não tendo nada para fazer, inventávamosalgo.

Naquele final de semana de umano já distante, elas me convidaram para irmos a um casamento em um dia de sábado.E eu claro, mesmo não conhecendo os noivos, topei a empreitada. Um verdadeiropenetra.

Se era um casamento eu teriaque deixar meu chinelo “lap, lap” de couro. Teria que colocar um sapato. Foiquando lembrei que só tinha um All Star. Velho tênis surrado que eu usava diasim, dia sim. Usar este tipo de calçado é antes de tudo um estilo. No meu caso,além do “estilo” era o único que possuía. Eu acreditava nisto.

Mas lembrei que eu tinha,também, um sapato bege. Que esquecido pelo tempo só o descobri naquela data.Casamento pede algo mais social. Deixei meu tênis no canto e lá fui eu naquelefinal de tarde a Igreja de São Francisco de Assis, padroeiro da minha cidade.Desci pé as ruas e já perto de chegar meus pés doíam. Pediam o velho tênis.

De longe vi as meninas emfrente da igreja me esperando. Ao me aproximar as duas estavam sorrindo e cochichandoentre elas. Lá me veio novamente aquele sentimento de pobre: elas com certeza estavamfalando de mim.

Ao chegar junto delas, minhasamigas, ouvi uma dizer a outra com o sorriso estampa no rosto, “ele não veiocom o Al Star”. Caíram na risada.

Naquele momento eu senti queser pobre é algo perceptível pelas outras pessoas. Mesmo seus melhores amigos podemlhe julgar pela aparência.

Para que outro momentoconstrangedor como esse não aconteça, agora eu tenho dois pares e quando queromudar, pego sapatos emprestados dos meus filhos.

Ser pobre é uma merda.
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