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Lula: As horas antes da prisão

Lula: As horas antes da prisão

15/02/2019 13h47 Atualizada há 8 anos atrás
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Lula: As horas antes da prisão

Sede do Sindicato dosMetalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, o clima é de comoção e estanoite não seria como tantas outras de normalidade. Naquele prédio estava omaior líder político mundial da atualidade. Cercado por uma multidão de pessoasque estavam ali com um único propósito, defender e garantir sua integridadefísica. Sabíamos que policiais federais estavam infiltrados entre a multidão eque tinham conseguido ter acesso as dependências. Já não conseguíamos maiscontrolar e saber quem era quem.
No segundo andar ondeestávamos, o sentimento era de resistência. Lutar, se preciso fosse, para queLula pudesse encontrar uma embaixada, pedir asilo e de lá comandar a lutapolítica no país. Este era o sentimento predominante naquelas dependências.Eram poucas as palavras o que se via muito eram os abraços e carinhos. No rostode cada um havia uma tristeza. Acho que falar seria como uma faca que corta, machucae deixa a ferida. Havia muita solidariedade e conforto em cada um.
Poucas pessoas tinham acessodireto a ele. E naquela bagunça generalizada, havia uma mulher, a CileneAntoniolli, que mesmo abatida, mostrava uma força interior que contagiava atodos os presentes. Ver ela fazendo as coisas acontecerem era o alento que seprecisava. Sabíamos que, mesmo após a prisão, Lula não estaria abandonado e aluta continuaria. As mulheres Petistas demostraram, desde a luta contra o Golpena Dilma, que elas são a principal força de combate da militância. Seja nas ruas,nos acampamentos ou no Congresso Nacional, são elas que veem dando show deorganização e engajamento. Era dela a função de fazer as coisas acontecem bempara todos, do Presidente a direção do partido, das lideranças de outrospartidos, dos advogados, da família e da militância que estava fora do prédio.
As horas iam passando e sabíamosque o momento da prisão estava mais próximo. A tensão aumentava. Autoridades epopulares se misturavam pelos corredores e salas do sindicato. Advogados edirigentes mais próximos ao Presidente Lula, já tomavam as providenciasnecessárias para sua apresentação à Justiça.
Para piorar um pouco mais ascoisas, cortaram a água e foi preciso providenciar garrafas de água. As coisassó iriam ficar mais difíceis. Havia a informação de que a polícia poderiainvadir o sindicato. A determinação de todos era que não haveria rendiçãonaquele local, acontecesse o que acontecesse. Eles não iriam humilhar a maiorliderança política mundial. Esta era a determinação no local. Mais tarde, Lulamudou este sentimento.
Haviam três pessoas, a GleisiHoffman, o Paulo Pimenta e o Wadih Damous que naquelas horas, lutarambravamente e defenderam publicamente o nosso Presidente, mostrando o erro queestava sendo cometido pela justiça brasileira. Não há provas para a prisão oque restou foi convicção de um juiz que depois se mostrou um político parcial.Eles se tornaram os guardiões da vida do Lula naquelas horas. Ninguém, nem a políciafederal, teria a coragem de invadir ou fazer qualquer ato com os parlamentaresno local.
Foi organizado melhor o acessoao segundo andar para que o Presidente pudesse circular mais à vontade.Isolaram uma parte do corredor e uma sala para que ele pudesse conversar comdirigentes e advogados e outra sala para que ele pudesse ficar com sua família.
Durante a madrugada o Lularesolveu circular pelo prédio lotado. Mal dava para andar pelos corredores. Aspessoas tentavam chegar nele. Se ouvia choro. Se via abraços e muitos celularestirando fotos além da preocupação de que ele saísse do prédio. A segurançapessoal e lideranças tiveram muito trabalho para o convencer de não ir até arua.
Passam as horas, e a resistênciadentro do sindicato continuava. Alguém mostrava pelo celular a repercussão queestava havendo na imprensa internacional do que acontecia em São Bernardo. A RedeTVT – Televisão dos Trabalhadores, era a única que fazia uma cobertura corretano Brasil. Estas informações chegavam rapidamente a Lula.
Na madrugada circulou ainformação de que Lula não queria ver sangue derramado ali. Já havia sidotomada a decisão de que ele iria se entregar. Houve muita reclamação damilitância quanto a isto, mas a disposição dele, talvez para que não houvesseconfronto, tenha ocorrido e se fez chegar a todos a sua decisão.
Já começavam a aparecer osprimeiros raios do sol. Naquela manhã haveria uma missão em homenagem à Dona Marisa.E que foi assistida pelo mundo através da internet.
Ele demostrava estartranquilo. Acalmava os mais exaltados. Tratava a todos de sua equipe maispróxima com muito carinho. Lula já não era confortado, Lula confortava a todoscom palavras. As vezes brincava. Olhando aquela cena os olhos encheram delagrimas. Como um homem que vai ter a sua vida privada da liberdade conseguesorrir e dar carinhos? Até hoje me pergunto o porquê de ele não ter ido a umaembaixada e de lá comandar a reação ao golpe. Só o Presidente poderá falar umdia sobre isto.
Chegou a hora de Lula sair doprédio e ir participar da missa.
Ele passou pelos corredoresouvido fritos de “Lula, guerreiro do povo brasileiro”. Sorria, abraça aspessoas, beijou outras. De fora vinha um barulho muito grande, eram milharesque ocupavam a frente e as ruas ao redor do sindicado. Aquele homem, que saiudo Nordeste como retirante e que chegou a presidência da república chegava aporta da saída. De longe deu para ver sendo levado pelos braços do povo. Lulalevantou os olhos, sorriu para uma mulher que lhe estendia as mãos, foi aoencontro dela e as beijou. Ele retomou o caminho e foi seguido por liderançasque não o abandonaram um só minuto naquela noite.
Lula sumiu no meio do povo,sendo abraçado por aqueles que reconhecem nele o melhor Presidente da históriado Brasil. Me resta a lembrança dos sons e das imagens de um povo defendendo oseu líder.
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