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O meu nome é John...

O meu nome é John...

16/02/2019 às 14h05 Atualizada em 16/02/2019 às 14h06
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O meu nome é John...


Jones Soares da Silva não nasceu em berço de ouro. Tambémnunca passou por dificuldades. Filho do petroleiro Leonardo e da professoraRoseli, Jones frequentou boas escolas. Nunca foi um gênio, nem um apoucado. Umaluno mediano. Formou-se em filosofia pela UNIT.

Jones ainda não conseguiu uma colocação rendosa. Mora com ospais, e está estudando para concurso. Até aí, nenhuma novidade. Jones é umsolitário. Não se sente parte de nada, não tem referências coletivas. Odeia apolítica e é indiferente a religião. Não pertence a nenhum grupo. Jones é umaalma desenraizada.

De uns tempos para cá, Seu Leonardo começou a achar Jonesestranho, meio confuso, com uma conversa sem pé nem cabeça. O que houve meufilho, o que está lhe faltando? Meu pai, a minha vida não tem sentido. Quem soueu, um inútil? O que isso menino? Fizemos o maior sacrifício para você estudar,agora é ter paciência, a sua hora vai chagar. Meu pai, não existe concurso parafilósofos!

Só que bateu uma crise existencial em Jones, e suaautoestima despencou. Jones nem crer nem descrer em nada. Uma alma vazia. Aprimeira ideia foi cuidar do corpo. Passou a frequentar uma academia, e aocupar boa parte do tempo na fisicultura. Engrossou os braços, tomou bomba,passou a ser um fitness. Mas não resolveu o vazio existencial.

Concluiu que o corpo musculoso não era suficiente. A suafeição tinha uma deformidade: as orelhas de abano, herdadas do Pai. Tomou umaprovidência imediata: procurou o cirurgião plástico mais caro de Aracaju, eoperou as orelhas. Por infelicidade, as orelhas que antes eram muito afastadasda cabeça, com a cirurgia, ficaram muito coladas. Ele não gostou. Nem ninguém!

“A cirurgia estética é uma medicina destinada a clientes quenão estão doentes, mas que querem mudar a sua aparência e modificar a suaidentidade. Provocar uma reviravolta em sua relação com o mundo.”

Para encobrir o defeito cirúrgico, Jones passou a usar umpar de brincos de penas com búzios caramelo. No começo chamou muita a atenção.Uns riam, outros debochavam, mas a verdade é que Jones saiu um pouco doanonimato. Começou a ser notado. Ele pensou, o caminho é esse, vou continuarinvestindo em meu corpo.

Nesse meio termo Jones tentou outras saídas. Fez terapiacognitiva comportamental (TCC), yoga, meditação, recorreu a homeopatia, virouvegano, Hare Krishna, punk, cheirou pó, teve uma experiência homo, fez a trilhade Santiago de Compostela, experimentou o Santo Daime, tentou o suicídio echegou até pensar em virar evangélico. Nada deu jeito. Ao final de cada experiência,a alma de Jones continuava vazia. Nenhuma resposta.

Só lhe sobrou o corpo, como último refúgio. “O corpo soueu!” imaginava ele inseguro... “Se não existem mais saídas nas esferascoletivas, vou buscar na vida privada.” Fez duas grandes tatuagens, uma nascostas, outra na bunda; pôs um piercing no nariz e outro na bochecha.

Pintou o cabelo de amarelo e mandou desenhar uma suástica.“Se não é possível mudar as condições de existências, pode-se pelo menos mudaro corpo de várias maneiras”, filosofava Jones. “O corpo é o emblema do self.”

Segundo Lasch, “essa paixão repentina pelo corpo é umaconsequência da estruturação individualista de nossas sociedades ocidentais,sobretudo em sua fase narcisista.”

Jones passou a trespassar o corpo com alfinetes, enganchoucruzes gamadas, mutilou, talhou, escarificou, usou trajes impróprios; fez umbranding com laser. Chegou a usar um ampallang, mas achou incomodo.

Jones se transformou num body builder. A sua alimentaçãopassou a receber um complemento nutricional dado por proteínas em pó, mineraise vitaminas. Jones Soares da Silva, aos trinta anos, é uma fortaleza demúsculos inúteis e enfeitados.

Jones tentou fabricar-se a si mesmo. O corpo virou o seualter ego. O corpo passou a ser o seu lugar de questionamento do mundo.

Nessa trilha sinuosa, Jones não sabe mais o que é máscara eo que é rosto. O virtual e o real se fundiram. No final da metamorfose, Jonesse transformou numa colcha de retalhos, fragmentado, polimorfo, disforme,membro de uma nova espécie, o Homo esquizoide, que em breve receberá um chipcom inteligência artificial, e será controlado via internet.

Antônio Samarone.
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