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Amor em preto e branco

Amor em preto e branco

01/05/2019 10h48 Atualizada há 7 anos atrás
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Amor em preto e branco
Naquele ano nós já tínhamosdecidido que o negócio na escola seria estudar e nada de brincadeiras ou algoque viesse a nos desviar dos estudos. E assim entramos na sala de aula.Normalmente sentávamos nas cadeiras do fundo da sala. Não foi diferente naqueledia. Cada um foi se sentando perto de quem já conhecia e tinha um pouco deafinidade. A surpresa foi ver aquela garota entre nós. Era o primeiro ano delaali. Talvez não conhecesse a turma do fundão.

Enquanto a professora começavaa escrever seu nome, informar que matéria iria lecionar, Roberto não tirava osolhos daquela branca ao nosso lado. Na verdade, nem ele, nem eu e nem osoutros. Ela era como uma gata tomando banho em uma bacia com água. Algoimprovável de se ver, mas que estava li.

Logo, Maria foi se enturmandocom todos. De sorriso fácil. Onde íamos, ela estava colada. Como toda turma deescola, é no intervalo que as coisas mais acontecem entre os amigos. Acho quefoi em algum desses momentos que percebi que o Roberto não tirava os olhosdela. Ele estava encantado por aquela menina linda. Não só ele a olhava. Todosda sala tinham um olhar diferenciado para ela. Os garotos das outras turmastambém. Mas ela estava sempre entre nós. E não dava nenhuma ousadia a ninguém.

Roberto, um negro, sofriamangação constante de todos. Uma hora era o seu cabelo, outras a sua cor e atéseu jeito de falar, era motivo para uma “brincadeira”. Ele nunca demonstrouficar chateado com aquilo. Eu nuca soube se ele tinha se acostumado ou sofria eria para não demostrar a sua dor.

Maria não gostava do quefazíamos com ele. Muitas das vezes ela levantou a voz dizendo que as palavras omachucava. Ele nunca disse nada. Mas desde que ela se juntou a turma, eupercebi que algo nele mudou. Quando ela o defendia, ele ficava calado aolhando. As brincadeiras já não tinham graça para Roberto. E Maria, aodefender, chamava a sua atenção.

Um certo dia, na fila dolanche, fizeram uma brincadeira pesada com ele. Mangaram de sua calça queestava “sajada” na bunda. Ele ficou tão sem graça que saiu correndo. Maria foiatrás dele. Mas antes, disse umas verdades a todos.

- Vocês acham que brincar, rirde uma pessoa os tornam amigos dela? Estão erradas. Isto só os torna pior queela. Tenho vergonha do que vocês se tornaram hoje.

O silêncio se abateu entre aturma. E ela foi ao encontro dele. Não retornaram mais as aulas naquele dia.Lembro que alguém veio buscar seus cadernos na sala.

Do dia seguinte em diante, osdois se tornaram inseparáveis. Continuaram andando conosco, mas estavam sempreum ao lado do outro. E mesmo todos tendo pedido desculpas, perdão pelo quefizemos, ela se tornou a escudeira dele. Daquele dia em diante, ninguém tiroumais nenhuma brincadeira com Roberto que remetesse a sua cor. Bastava umamenção sobre outra pessoa que fosse, para o olhar de Maria repreender a pessoaque fizera.

Eles foram ficando tãoinseparáveis que o “improvável” aconteceu. Cláudio entrou na sala naquelasegunda-feira, chamou o grupo no fundo da sala para ninguém mais ouvir o queele tinha a dizer e anunciou:

- Eu acabei de ver, Roberto eMaria se beijando atrás da escola.

Ninguém parece ter acreditadono que acabará de ouvir. Todos saímos correndo em direção ao local para ver asena, se verdade fosse, que poderia ainda estar acontecendo. Ao virarmos aesquina da escola, encontramos os dois sentados, um ao lado do outro. Não tinhabeijo, não estavam de mãos juntas. Nem juntinhos estavam. Mas tinha algo alique era diferente de só amizade.
Daquele dia em diante, víamosos dois ainda mais juntos. Quando estavam conosco, já víamos suas mãos juntas.Os carinhos, antes de amizade, foram ficando mais intensos. Aconteceram tão naturalmenteque não chamaram tanta a nossa atenção para o fato de ele ser negro e ela serbranca cor de leite e cabelos loiros.

Mas aquele casal não era bemvisto na escola. Descobertos por todos, começaram a ser apontados como umaatração. E no pior dos sentidos. A diretora mandou chamar os dois e avisou queera proibido o namoro entre estudantes na escola. Ela só esqueceu de chamartodos os outros casais “normais” para dar a mesma lição de moral neles.

Maria e Roberto, mesmo com aameaça de que a história dos dois fosse denunciada a seus pais, não mudaram umsó instante nos seus comportamentos. Ele até demostrou preocupação com ela. Elanunca teve medo de enfrentar a sociedade e seus pais. E assim fez. Antes mesmoque a diretora convocasse seus pais, ela contou a eles o que estava sepassando.

Roberto, mesmo com seusdezesseis anos e Maria com seus quinze anos, enfrentaram tudo de frente. Elecomeçou a frequentar a casa dela. Teria sido um pedido dos pais dela. Elesapoiaram a filha, mas mostraram a ela o quanto o amor que ela dizia sentir porRoberto a iria machucar. Aquela garota, sabe-se lá o porquê, amou aquele negro,não por sua cor, mas pelo que ele era para ela.

Já se fazem 37 anos desdeaquele ano na escola. No mês passado eu os encontrei na feira. Estavam, comosempre, juntinhos. Tinham conseguido passar por todos os problemas que umarelação como a deles pode causar. Conseguiram ultrapassar todos estes anosenfrentando todos os tipos de comentários que um negro e uma branca casadosainda podem causar na sociedade. Me falaram que tem um casal de filhos. Que osdois também estudaram na mesma escola que nós. Que são felizes juntos.

E eu percebi, que mais do quea cor do ser humano, o amor entre duas pessoas pode romper todas as barreirassociais existentes. Aquele casal de amigos é um exemplo de que, não tem classesocial, não tem condições financeiras, não tem cor nem pedras no caminham quenão possam ser removidas quando existe amor entre duas pessoas.

Eu tenho certeza, que ahistória dos dois, me tornou uma pessoa melhor.

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