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Uma oposição sonolenta (Por Aldo Fornazieri)

Uma oposição sonolenta (Por Aldo Fornazieri)

18/07/2019 11h25 Atualizada há 7 anos atrás
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Uma oposição sonolenta (Por Aldo Fornazieri)

Nem a indignação e certa euforia provocadas pelas revelaçõesdos crimes de Sérgio Moro, Dallagnol e outros setores da Lava Jato e nem osdesatinos destrutivos continuados do governo Bolsonaro podem escamotear a duraderrota que as oposições sofreram na reforma da Previdência. Enquanto Bolsonaroé incansável em produzir fatos negativos para si e para o governo, as oposiçõessão plácidas em produzir algo de positivo para elas.

As oposições, particularmente o PT, partiram de uma premissaerrada acerca da reforma da Previdência: a de que ela não seria aprovada. Nofinal de fevereiro pude testemunhar pessoalmente esta premissa: em conversa comum dos mais altos dirigentes do PT ele propôs até uma aposta de que a reformanão passaria, enquanto manifestei uma opinião contrária. A avaliação equivocadalevou a um erro tático: se a reforma não passaria, bastava se posicionar contraa mesma. Agora, se a avaliação fosse a de que a reforma tinha chance de seraprovada, a tática correta para fazer a disputa política consistia emapresentar uma proposta alternativa de reforma, centrada em dois eixos: ataqueaos privilégios e defesa dos interesses dos trabalhadores menos favorecidos nosistema previdenciário. A rigor, a oposição ficou à margem da disputa epermitiu que o centrão e Rodrigo Maia ocupassem o espaço político decorrente doprocesso da reforma. O resultado foi duplamente desastroso: a reforma foiaprovada por elásticos 379 votos, incluindo dissidentes da oposição e a maioriada sociedade – 47% a 44% – passou a apoiar a reforma, conforme pesquisaDatafolha divulgada no último dia 9 de julho.

Provavelmente o Brasil seja o único país do mundo onde amaioria social apoia uma reforma da previdência. Em vários países onde ocorremreformas da previdência os processos foram marcados por grandes protestos etumultos de rua. As pressões das ruas foram tão veementes que muitos governosforam obrigados a recuar. Aqui foi chamada uma greve geral que foi muitoparcial. No dia da votação da reforma a Câmara dos Deputados não foi cerca portrabalhadores e sindicalista e sequer ocorreu qualquer protesto significativo.Se as oposições estão sonolentas, os sindicalistas estão sob os efeitos de umsono que parece eterno, dopados pelo burocratismo e pela acomodação.

As oposições se tornaram um ajuntamento especulativo. Em suailusão especulativa acreditavam em três coisas: que Lula seria libertado, que areforma da Previdência não passaria e que Bolsonaro cairia em pouco tempo. Emfunção do seu ilusionismo, no fundamental, as oposições se tornaram passivas.Manifestam-se sobre as agendas patrocinadas pelos outros ou pelascircunstâncias, mas não têm uma agenda própria. Enquanto Rodrigo Maiapontificou como o grande articulador da centro-direita, não se viu os líderesda oposição patrocinarem grandes articulações do campo progressista e popular.Maia, por tabela, foi até mesmo o grande general de Bolsonaro. No campoprogressista e dos movimentos sociais não se viram grandes generais, nemcoronéis, nem majores, nem capitães. Quem sabe algum tenente.

Enquanto o campo progressista e oposicionista foiincompetente em puxar votos do centro político contra a reforma, o general deBolsonaro conseguiu puxar votos dos progressistas em favor da mesma. RodrigoMaia e o centrão, enquanto dão uma mão ao desorganizado governo Bolsonaro emtroca da liberação de verbas de emendas, parecem estar construindo umaalternativa de centro-direita ao mesmo Bolsonaro, que pode se encarnar nafigura do governador João Dória. Se a oposição não reagir na construção dealternativas e se Bolsonaro se estabilizar no governo poderá ocorrer, em 2022,um segundo turno entre a extrema-direita e centro-direita. Este será um riscocrescente se não surgirem líderes articuladores no campo progressista, quearticulem não só os partidos, mas também que apresentem propostas programáticasaglutinadora dos vários grupos sociais.

Ao agirem apenas a partir das agendas políticas provocadaspor terceiros ou a partir daquelas que são ofertadas pelas circunstâncias, asoposições operam na defensiva. É como se ficassem paradas esperando que oinimigo lhe trouxesse a guerra para o seu território (das oposições). Jogar nadefensiva, jogar a partir das tergiversações e das firulas do inimigo,significa ficar parado. Ficar parado é o primeiro ato da derrota. As oposiçõessó viabilizarão uma alternativa se tiverem uma estratégia ofensiva, de ataque ede proposição, nas várias frentes. Não ter uma estratégia de ataque, deconfronto, significa favorecer os inimigos. Não ter uma estratégia de proposiçõessignifica não ter capacidade para fazer aliados.

Ademais, a política se define mais pela ação do que pelasexpectativas. Em política, o tempo é cruel com quem não age, com quem não serenova. Não agir e não se renovar significa envelhecer o corpo político,deixando que ele seja tomado pelas doenças. Não agir, não ter estratégiasignifica erodir o capital político que se tem. O consenso do passado pode setornar abandono hoje. O apoio de ontem pode se tornar repúdio no amanhã. Quandofica claro que um partido ou um líder não irá vencer, cresce o movimento deabandono. Se os líderes e os partidos não estiverem em prontidão para agirpodem ter certeza de que suas expectativas não se realizarão. Alimentar-se deexpectativa de vitórias sem agir é a grande ilusão que adoece o campoprogressista, as forças de esquerda. Os partidos do campo progressista estãobastante desorganizados, sem direção e sem rumo. Isto significa que não têmbons líderes.

Ao que parece, as oposições, principalmente as esquerdas,perderam a capacidade persuasiva, e este é um grave problema político. Aincapacidade de convencer produz derrotas sucessivas. A persuasão, ligada àcomunicação, é um elemento central da atividade política. Ao que tudo indica, ocampo progressista tem problemas de conteúdo e de forma nas suas propostas enas suas formas de se comunicar. Não há política vitoriosa sem alta capacidadepersuasiva. As esquerdas se especializaram em adotar táticas escapistas em facede sua incompetência persuasiva: colocar a culpa nos inimigos, na imprensa etc.Esta é uma forma envergonhada de reconhecer que os seus inimigos são maiscompetentes do que eles – as esquerdas. Se as esquerdas quiserem chegar a algumlugar precisam examinar os conteúdos do que comunicam e as formas de como comunicam.


Por Aldo Fornazieri no Diário do centro do Mundo.
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