crônica Dia dos Pais

O Estado que é pai e mãe

É na educação que a ideia de emancipação aparece sem disfarces

09/08/2026 18h36
Por: Redação Fonte: Isaac
O Estado que é pai e mãe

Um pai ensina a atravessar a rua. Anos depois, recolhe a mão e confia. Nesse gesto aparentemente simples convivem duas responsabilidades difíceis de equilibrar: proteger e preparar para a autonomia. O Dia dos Pais permite levar essa imagem para além da família e pensar no papel de um Estado que não desaparece quando a vida aperta, tampouco transforma amparo em dependência.

Governo algum ocupa o lugar de pai ou mãe, e cidadão não é filho do poder. A alegoria interessa justamente porque afasta o paternalismo. Cuidado público maduro não cobra gratidão nem submissão; chega como direito. É pai quando oferece segurança e horizonte. É mãe na escuta, no acolhimento, na atenção que percebe a urgência antes de ela virar abandono. Virtudes humanas, não marcas de gênero. Na Bahia, a gestão de Jerônimo Rodrigues procura reunir essas dimensões numa presença capaz de proteger hoje sem sequestrar o amanhã.

A urgência começa pelo prato. Quem tem fome não pode aguardar que a economia melhore ou que o futuro cumpra promessas. O Bahia Sem Fome responde ao agora com alimento, mas avança sobre as causas ao fortalecer a agricultura familiar, ampliar o acesso à água e estimular trabalho e renda. A política pública ganha densidade nesse movimento: socorre a família e, ao mesmo tempo, reduz as condições que a empurraram para a insegurança alimentar. Com o Bolsa Presença ocorre algo semelhante. O benefício ajuda a sustentar a casa enquanto mantém crianças e adolescentes na escola, onde uma trajetória diferente pode começar.

É na educação que a ideia de emancipação aparece sem disfarces. As escolas de tempo integral ampliadas e modernizadas entregam ao estudante muito mais que uma carteira e um quadro: laboratórios, bibliotecas, esporte, cultura, alimentação e formação profissional redesenham o espaço público e, com ele, as expectativas de quem entra ali todos os dias. Permanecer estudando deixa de ser uma resistência solitária contra a pobreza. Mais adiante, o Partiu Estágio enfrenta uma das crueldades silenciosas do mercado de trabalho — exigir experiência de quem nunca recebeu a primeira oportunidade. O Estado abre a porta; atravessá-la e construir o caminho cabe ao jovem.

geografia baiana também impõe sua conta. Uma consulta especializada a centenas de quilômetros, uma ambulância sacudida por longas estradas, a produção rural que perde valor antes de chegar ao mercado: distância, na Bahia, pode virar outra forma de desigualdade. As feiras do Saúde Mais Perto, as policlínicas, os novos hospitais e a ampliação da rede reduzem esse peso. O asfalto recuperado completa o cuidado, porque uma rodovia não serve apenas aos carros. Por ela passam o ônibus escolar, o socorro, a colheita e a chance de uma comunidade permanecer ligada ao restante do estado.

A melhor política social carrega um prazo oculto no próprio propósito: o dia em que a necessidade encolhe e a liberdade de escolha aumenta. Até lá, o Estado provê, acolhe e protege. Faz isso sem distribuir favores. Comida, escola, saúde, água e mobilidade pertencem ao campo dos direitos, assim como a qualificação capaz de transformar sobrevivência em projeto de vida. Mérito, sozinho, nunca construiu uma ponte sobre o abismo social; no máximo, serviu de desculpa a quem nasceu do lado mais confortável.

Jerônimo nasceu em Palmeirinha, povoado de Aiquara. Tornou-se professor e engenheiro agrônomo. Há uma coerência biográfica, portanto, na prioridade dada à educação e ao combate à fome: são duas portas decisivas da vida baiana, a escola que abre horizontes e o campo que põe comida na mesa. A origem não dispensa o governo de prestar contas nem substitui resultados. Aumenta a responsabilidade. Cuidado só vira política quando aparece no orçamento, na obra concluída, no serviço que alcança quem precisa.

Neste Dia dos Pais, a homenagem possível ao Estado não pede flores nem frases de ocasião. Pede presença. Um governo será pai e mãe na medida em que recusar o abandono, tratar cada baiano como sujeito — jamais dependente — e construir o chão sobre o qual ele possa seguir. A mão oferecida tem valor. Atravessar sem precisar dela, adiante, é o que dá sentido a tudo.

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